Es.pa.ço s. m. 1. Fís. Extensão tridimensional ilimitada ou infinitamente grande, que
contém todos os seres e coisas e é campo de todos os eventos.
I.ma.gi.ná.rio adj. 1. Que só existe na imaginação. 2. Que não é real. 3. Ilusório. S. m. Escultor de imagens.



quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

As Cidades Possíveis 2: Alethea

Algumas cidades vivem de seu passado memorável. Ostentam palácios de mármore, teatros de metal e vidro, aquedutos, museus, como se fossem as fotos em preto e branco de um álbum de família, pérolas de um tempo pretérito cheio de louros e grandeza e opulência...

Assim também é Alethea... A cidade viveu um passado rico, quando era então a grande metrópole para onde convergiam os olhares e atenções. A Alethea de então pululava de fábricas, de riqueza e progresso: pessoas passavam de um lado a outro, e mercadorias circulavam, e tudo parecia brilhar com o ouro que brotava, e as damas usavam vestidos de seda riquíssima e os cavalheiros cumprimentavam tirando o chapéu.

Mas esse tempo se foi, e os palácios, teatros, aquedutos e museus, restos de pedra e mármore de um tempo de grandeza, jazem esquecidos: as fábricas foram embora, a cidade que antes era farol hoje vive se amargurando, quando se compara às metrópoles, pobres à sua época de ouro, e que hoje crescem e se inflam e ocupam os espaços vazios... E considerando-se a cidade mais feia, mais suja, mais pobre, mais violenta, presa a esses rótulos, e assombrada pelos feitos de um passado distante, Alethea impede a si mesma de florescer, e se obriga a ser sempre mais no menos.

Longe de seu passado glorioso, a cidade aparece aos olhos de seus habitantes como um receptáculo de tudo o que é ruim, pequeno, feio, medíocre, ou menos, e menos ainda. E enquanto olham para trás e contemplam as glórias perdidas, e olham para longe e contemplam as cidades que espelham o que Alethea poderia ter sido (e não foi), seus habitantes não se dão conta da cidade em que vivem, e não são capazes de enxergar as ruas cinzentas por onde caminham, as torres que se erguem contra o perfil montanhoso, as galerias que cortam sua compacidade de concreto e aço, as antenas dos pára-raios que irrompem dos altos edifícios, as multidões que se abrigam da chuva nos pontos de ônibus, como formigas. Presos ao passado, não se dão conta de que a cidade cresce no presente, ainda que amorfa e desordenadamente, mas cresce, e se concretiza, e quem sabe quando atingirá o céu?

Embora Alethea pareça, à primeira vista, apenas uma coleção de fragmentos de memória, cacos dourados de um passado opulento misturados a peças de latão, cascas de frutas, latas de lixo, folhas secas, de fato a cidade possui dentro de si um vir-a-ser. No entanto, não sabem os seus habitantes que a Alethea futura, esta que aguarda o momento propício para despontar, não é espelho de seu passado ilustre. A Alethea vindoura não guarda semelhança alguma com os fragmentos esparsos de seu ontem, mas brilha de nova acumulando torres compactas de concreto e vidro, galerias, antenas de pára-raios, e ruas cinzentas. Este é o gérmen de uma cidade magnífica, encasulado na cidade dourada, translúcida e sem espessura, que aguarda o momento de sua libertação...

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

As Cidades Possíveis 1: Lira

Caminhando-se por vários dias em direção ao sul, atravessa-se cadeias de montanhas e lagos congelados. Finalmente o viajante atinge Lira, cidade cinza de concreto e pedra. Não que existam muitos atrativos em Lira que compensem a difícil travessia. Na verdade, a cidade é feia e apagada, não possuindo qualquer tipo de beleza ou particularidade que a torne memorável: a praça é um amontoado de bancos de concreto cinza, árvores esparsas, lampiões cobertos de ferrugem... A igreja, com a pintura descascada, é idêntica a milhares de outras igrejas, comum e simplória, como tudo na cidade. Os subúrbios são os mesmos, e os rostos e sotaques idênticos a uma série de rostos e sotaques que se encontra em dezenas de outras cidades. Não, Lira não possui nenhum tipo de singularidade que a qualifique como magnífica. A população, empenhada em acumular dinheiro, trabalha durante todo o dia, até mesmo nos feriados. Não existem dias de descanso, ou dias de lazer, não existem datas comemorativas. Das janelas dos escritórios ouve-se o barulho repetido dos dedos metralhando máquinas de escrever e computadores, e dos telefones tocando... Das janelas das casas, à noite, pode-se ver a luz azulada que vêm do televisor, onde os mesmos programas se repetem dia após dia. Em Lira parece existir uma onda de avareza e egoísmo, de mau-humor e tédio, de ódio e asco, e todos os dias milhares de sonâmbulos percorrem as ruas cinzentas de Lira, da casa para o trabalho, e do trabalho para casa, e da casa para o trabalho de novo, e de novo, e de novo... A cidade parece envolvida por uma constante letargia: em Lira nada cresce, nada brilha, nada germina, é sempre concreto contra concreto, cinza contra cinza...

A razão de descrevê-la é que, mesmo em meio à desinteressante profusão de muros e praças e ruas e casas, às vezes algo de inconfundivelmente lindo e singular parece brotar, em meio à feiúra sempre-cinza de Lira, como uma flor tardia, tímida e pequena, até mesmo pálida, mas ainda assim... É apenas uma sensação, um pressentimento, de que em meio ao cinza dos muros, em meio ao egoísmo e ao mau-humor das pessoas que passam, caras fechadas, fechados em seus sobretudos escuros, existe uma outra Lira, magnífica e dourada, resplandecente, receptáculo de todas as coisas boas, das virtudes mais elevadas, dos sentimentos mais puros... É um sentimento estranho e inexplicavelmente bom, que nasce no fundo do peito quando se vê, em meio à amplitude de torres ameaçadoras de concreto e vidro, um pássaro azul voando livre contra o céu cinzento, ou um resiliente raio de sol furando a espessa camada de fumaça que envolve a atmosfera, ou um cão feliz roendo um pedaço de pão encontrado no lixo, ou ainda quando se vê um grito de liberdade e revolução escrito em vermelho nos muros de pedra.

Por isso, quando ouvir notícias de Lira, lembre-se, desavisado viajante, não da cidade feia e comum, de pedra, concreto, cinza e tédio, mas da Lira de flores, pássaros, raios de sol e gritos de liberdade. Quando pensar em Lira, não pense na cidade real, que se espalha sobre o solo arenoso, mas na cidade possível, uma flor pálida que brota no fundo da mente humana, mas cresce e cresce e cresce, e se expande, e se dilata...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

As Cidades e os Sonhos 2: Veneza

Sonho com muitas cidades. Cidades grandes e pequenas, reais e imaginárias, cidades belas e feias, cidades de pedra ou cidades leves, de “espessura opaca e fictícia”. As cidades com que sonho fazem-se a si mesmas, reúnem-se em um colar como contas de âmbar, cidades inumeráveis, cada qual com sua particularidade. Entretanto, de todas as cidades sonhadas, belas ou feias, brilhantes ou caóticas, ilustres ou desconhecidas, nenhuma jamais conseguiu me encantar tanto quanto uma pequena cidade aquática chamada Veneza. Os canais de Veneza canalizam meus desejos e fantasias, atraem meus olhares, prendem minha atenção, tiram-me o fôlego, e por mais que eu tente é impossível escapar desse encanto... Por mais que meus desejos me levem a outras cidades, por mais que sonhe com a delirante Nova York, com a imperiosa Roma, com a velha Londres, com a sedutora Paris, quando estou feliz e desatento, quando respiro a brisa do começo de primavera e o ar traz o aroma de frutas maduras, quando fecho os olhos em meio ao barulho, à fumaça, à fuligem e à feiúra, e por um momento estou em paz, sinto-me imediatamente em Veneza, caminhando pelas pedras lodosas de Veneza, ou deslizando de gôndola pelos canais de Veneza, ou observando os canais debruçado sobre os balcões dos palácios de Veneza, e não importa onde eu realmente esteja, não importam o barulho, a fumaça, a fuligem, a feiúra, os assaltos, as fofocas, não me importa nada, porque naquele momento, olhos fechados e coração em calma, estou em Veneza, e tudo o que vejo, ouço, sinto e respiro é Veneza...

Do lado de fora das minhas pálpebras ainda existem o barulho, a fuligem, e a feiúra, mas com os olhos fechados, nada parece mais real do que residir no encanto de Veneza. Por mais estranho e impossível que pareça, espero ainda pelo dia em que se produzirá o fenômeno inverso. Por isso, continuo a fechar minhas pálpebras em meio à fuligem e à feiúra, em meio ao barulho e à náusea, aguardando sempre pelo dia em que, ao abrir os olhos, a realidade me trará Veneza.