Es.pa.ço s. m. 1. Fís. Extensão tridimensional ilimitada ou infinitamente grande, que
contém todos os seres e coisas e é campo de todos os eventos.
I.ma.gi.ná.rio adj. 1. Que só existe na imaginação. 2. Que não é real. 3. Ilusório. S. m. Escultor de imagens.



domingo, 22 de março de 2009

O Peso da Cidade

Cidades invisíveis, de Ítalo Calvino é um livro extraordinário: não só pelo seu inegável lirismo, que o torna um exercício à sensibilidade, mas pela discussão que evoca. O livro de Calvino nos faz repensar a cidade, o nosso próprio conceito de cidade, tornando-a um emblema da complexidade da existência humana. Tal reflexão nunca foi tão importante para nossa sociedade como hoje, embora a maior parte de nós não perceba.
O livro tem como protagonistas o mercador veneziano Marco Pólo e o imperador mongol Kublai Khan: cada capítulo corresponde a uma descrição, fictícia, feita por Marco Pólo de uma das cidades visitadas em suas missões diplomáticas a serviço do Khan. As cidades relatadas por Pólo são cidades belas, ora delgadas, ora ocultas, sempre fantásticas e surreais. As narrações de Pólo são entremeadas pelos diálogos entre ele e o imperador, nas quais os dois ponderam a respeito das cidades, do homem e da existência.
Embora escrito três décadas atrás a temática abordada por Calvino nunca foi tão atual: o livro pode ser considerado uma metáfora (ou uma crítica?) da sociedade contemporânea. Cidades como Leônia, Bersabéia, Procópia entre outras, não são apenas cidades invisíveis, líricas ou imaginadas... Todas carregam algum tipo de relação com nossa realidade: são símbolos das nossas cidades atuais. O que nos faz refletir sobre o nosso papel como arquitetos, urbanistas e, principalmente, como seres humanos.
Não é de hoje que o tema da cidade é abordado por pensadores de outras áreas do conhecimento. E mesmo dentro do campo do urbanismo diversos autores já abordaram a questão da cidade contemporânea, como o arquiteto e urbanista inglês Richard Rogers, em Cidades para um pequeno planeta. É possível mesmo estabelecer um paralelo entre as duas obras. Em Cidades Invisíveis, por exemplo, Calvino escreve sobre uma cidade em forma de teia de aranha: suspensa sobre um precipício, em meio a duas montanhas, Otávia é sustentada por uma rede tão fina que qualquer sobrecarga poderia romper o equilíbrio e, conseqüentemente, a cidade cairia no abismo. A cidade de Otávia é semelhante ao nosso planeta: para sobreviver dependemos de um equilíbrio extremamente frágil. O problema é que vivemos em uma sociedade que satura nosso ecossistema de maneira tão drástica que, de uma hora pra outra, podemos cair sobre o despenhadeiro. O livro de Rogers traz uma mensagem clara: nosso planeta não suporta mais as nossas cidades, populosas, poluídas e poluidoras. É um caminho arriscado esse que estamos seguindo. E o problema maior é que estamos levando muito tempo para nos dar conta disso.
Claro, seria mentira dizer que o debate sobre a sustentabilidade é inédito. Na verdade, esse tema vem preocupando os estudiosos há muito tempo. Mas só agora, com a discussão sobre desenvolvimento sustentável estendendo-se a todas as esferas da sociedade é que esse tema ganhou força no urbanismo. Hoje em dia realizam-se simpósios e congressos, escrevem-se teses e mais teses sobre esse tópico. Mas é tudo panfletário demais, ideológico demais. Até agora poucas foram as idéias que saíram do papel, ou da prancheta. E enquanto isso, nosso frágil ecossistema continua ameaçado pelo peso do consumismo.
A conscientização talvez seja a etapa mais importante desse processo. Falo não apenas da difusão dessas idéias entre os profissionais da área, mas entre a população como um todo. Não temos mais qualidade de vida nas nossas cidades, e isso não nos preocupa. É preciso que a população tome consciência da importância do debate sobre urbanismo, é preciso que arquitetos e urbanistas lutem com unhas e dentes para defender suas idéias junto ao poder público, é preciso tornar a questão urbana um problema de todos.
É preciso isto, é preciso aquilo... Mas é preciso principalmente que as resoluções deixem o subsolo escuro das idéias onde elas permanecem encarceradas. Transformar a idealização em ação é a tarefa mais urgente a todos nós. Já é hora de pensarmos na cidade, ou re-pensarmos a cidade. Ou mudamos nossa forma de viver, ou não haverá futuro para as próximas gerações. Estamos pendendo sobre um abismo perigoso: qualquer sobrecarga pode nos fazer cair. Principalmente o peso de nossa própria consciência.

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