Es.pa.ço s. m. 1. Fís. Extensão tridimensional ilimitada ou infinitamente grande, que
contém todos os seres e coisas e é campo de todos os eventos.
I.ma.gi.ná.rio adj. 1. Que só existe na imaginação. 2. Que não é real. 3. Ilusório. S. m. Escultor de imagens.



domingo, 26 de outubro de 2008

Camillo Sitte e a contemporaneidade...

Quinta-feira, aula de Evolução do Pensamento Urbanístico I, da Profa Patrícia... O trabalho era uma análise do livro A construção das cidades segundo seus princípios artísticos, de Camilo Sitte. Papo vai, papo vem, tivemos uma discussão interessante sobre a função social das praças (e espaços livres públicos em geral) na contemporaneidade... A questão principal era: será que hoje em dia as praças são espaços vivenciados como há décadas atrás? Ou será que nossa vida corrida e a violência urbana nos tem afastado desses espaços? E se as praças estão mesmo "degenerando" por falta de uso, qual seria a solução mais adequada? É possível reverter esse quadro?
Claro que esse assunto é bem mais complicado do que parece. De um lado temos a degeneração das relações físicas entre as pessoas, graças ao avanço da informatização. Por outro, a violência gerada pelo caos urbano, que faz com que as pessoas evitem ao máximo os espaços inseguros, e aí incluem-se algumas praças e parques. Abandonados, esses locais se tornam foco de criminalidade, o que aumenta ainda mais a insegurança nesses espaços. Afinal, quem nunca passou por uma pracinha à noite e viu um grupinho meio suspeito fazendo sabe-se lá o que? Nas cidades pequenas, onde as distâncias físicas entre as pessoas são menores e onde há uma cultura que valoriza as relações pessoais as praças ainda são eventos sociais, ainda são ponto de encontro e interação entre pessoas. Mas nas grandes cidades o quadro tende mais para o abandono desses espaços.
Repito que é um assunto muito complexo. Jaime Lerner, autor do livro Acupuntura urbana destaca que a valorização de certos pontos no tecido urbano em muitos casos é suficiente para regenerar grandes áreas. Sem dúvida as praças e parques podem atuar como acupuntura urbana. Mas para isso é preciso fazer com que esses espaços se tornem atrativos para as pessoas, de modo que elas sintam-se parte daquele espaço e zelem por ele. Como fazer isso? Sinceramente não sei. Cabe aqui uma análise dos hábitos da população das grandes cidades para identificar quais as suas necessidades e, aí sim, procurar atendê-las com esses espaços... Não vamos deixar as praças morrerem (no aspecto social)... Ainda há tempo de fazer alguma coisa.
Obs.: O assunto é mesmo muito complexo, mas tambérm muito interessante. Acho que vai render um tema para meu trabalho final....

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Cinco livros...

Sem muitas idéias sobre o que postar eu resolvi fazer uma listinha dos meus livros favoritos... Então, toda semana vai aí uma lista de 5 livros que eu AMO, não só de Arq e Urb, mas também sobre outros temas pertinentes à nossa condição humana...
Essa semana os selecionados foram:
1. Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino
O mote do livro parece simples: o mercador veneziano Marco Polo, embaixador do Grande Kublai Khan, imperador dos tártaros, relata as numerosas cidades visitadas em suas missões diplomáticas. Parece, repito, porque o livro se desdobra em uma trama complexa à medida que a viagem prossegue. Nas palavras de Marco Polo as cidades descritas ganham contornos fantásticos, líricos, literários, atemporais e tais: a cada novo relato Ítalo Calvino, unindo poesia e uma boa dose de filosofia, discorre sobre a cidade, esse organismo complexo, controverso, simbólico e incrivelmente fascinate.
2. O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Bronte
Poucos romances conseguem ser ao mesmo tempo tão cativantes e tão perturbadores quanto este livro, escrito por uma jovem e enfermiça professora inglesa. O texto trágico e romântico de Bronte conta a história do atormentado amor de Catherine Earnshaw, uma caprichosa jovem de uma boa família inglesa, e Heathcliff, o mais vilanesco de todos os heróis dos romances vitorianos. O Morro dos Ventos Uivantes é um livro atemporal, romântico, trágico, denso: tentar desvendar essas personagens tão sombrias é um mergulho vertiginoso dentro da crueza e da doçura da alma humana.
3. A menina que roubava livros, de Markus Zusak
Quem poderia esperar que uma história contada pela morte se tornaria uma bela lição de vida? No livro de Markus Zusak a Morte, ela mesma, conta a história de Leisel Meminger, a menina que roubava livros, uma órfã que é acolhida, na Alemanha nazista, pelo casal Hubberman. Ao longo da história, Leisel conhece personagens marcantes, com os quais ela aprende mais sobre a vida e a morte. À medida em que a guerra prossegue, Leisel encontra nos livros, e nas pessoas que ela conhece, uma forma de superar a guerra, o ódio, a tristeza e o medo.
4. Saber ver a Arquitetura, de Bruno Zevi
Para quem já passou ou está passando pelo curso de Arquitetura e Urbanismo, as apresentações são dispensáveis. Para quem não conhece, é um dos livros mais emblemáticos na Teoria da Arquitetura. Começando com uma análise da crítica da arquitetura e da necessidade de saber interpretá-la segundo conceitos adequados, Zevi parte do modernismo para analisar o tratamento do espaço na história da Arquitetura.
5. A cidade na História, de Lewis Mumford
Em A cidade na história Mumford trata do surgimento e evolução das cidades ao longo da história da sociedade. Das organizações mais primitivas, às cidades-estado gregas, da gloriosa Roma às Bastides e burgos medievais, da cidade renascentista à cidade industrial do século XIX, o livro de Mumford convida a uma viagem no urbanismo através da história da humanidade.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

As postagens abaixo foram baseadas nas aulas de Evolução do Pensamento Urbanístico I, para os coleguinhas que querem estudar para a prova de amanhã. Divirtam-se!!

Reformas Urbanas: Rio de Janeiro (Pereira Passos)

A cidade do Rio de Janeiro, fundada em 1565, permaneceu como um simples entreposto comercial até que a descoberta do ouro em minas levou o desenvolvimento econômico para a região sudeste. Nesse período o Rio foi elevado à condição de capital da colônia.
Até o século XIX o Rio de Janeiro ocupava apenas a área limitada entre o morro do castelo, de são Bento, de Santo Antônio e da Conceição.
A precariedade dos meios de transporte obrigava a população a residir mais próxima. Não havia estratificação espacial e o status do morador era evidenciado apenas pela aparência externa da edificação.
Em 1808, com a chegada da corte portuguesa o Rio de Janeiro é elevado á condição de Sede do Reino Unido de Portugal e Algarves. A cidade de 60000 habitantes (dos quais 40000 eram escravos) recebe cerca de 15000 portugueses. Como conseqüência da instalação da corte no Rio acontecem grandes transformações em sua estrutura social e física. A abertura dos portos às nações amigas (leia-se INGLATERRA) levou a um desenvolvimento comercial. Os serviços de abastecimento de água foram melhorados. Os bairros em que a corte se instalou passaram a ser mais valorizados e, conseqüentemente, surge a estratificação espacial e a segregação por bairros. O processo de expansão da cidade também se acelera, uma vez que a população mais abastada procura novas áreas afastadas do centro.
Em 7 de setembro de 1822 o Brasil se torna “independente” de Portugal. Nesse período o Rio contava com mais de 100000 habitantes. A expansão da economia cafeeira atrai grandes contingentes de trabalhadores. Em meados do século XIX são cedidas concessões para a atuação de empresas estrangeiras nos serviços de transporte público, água e iluminação, etc.
Entre 1870 e 1902 acontece um processo de expansão acelerada da malha urbana. Essa expansão leva à melhoria dos transportes. O primeiro trecho da Estrada de Ferro D. Pedro II é concluído em 1858 e a primeira linha de bondes puxados à tração animal data de 1868. O trem liga o centro ao subúrbio, ocupado pela população de baixa renda; o bonde liga o centro à zona sul, ocupada pela classe mais alta.
Nesse período a situação do centro ainda era precária, pois as reformas foram localizadas nas áreas de expansão. As freguesias centrais encontravam-se extremamente adensadas devido à necessidade da população carente de residir próxima ao local de trabalho. Esse adensamento levou à proliferação de cortiços, que tornaram-se fonte constante de epidemias. Os discursos sanitaristas combatiam a existência dos cortiços e muitos destes foram expropriados e demolidos.
No final do século XIX, com o declínio da economia cafeeira houve um aumento no número de fábricas no Rio. Com o fim do sistema escravagista e a migração de trabalhadores estrangeiros o problema habitacional agravou-se. Os cortiços ainda existentes foram se adensando e as epidemias aumentaram.
Em 15 de Novembro de 1889 o Brasil tornou-se uma República. Com o novo regime surgiu o ideal de mudar a imagem colonial do Rio de Janeiro. A primeira reforma urbana de vulto nesse período aconteceu no governo de Pereira Passos (1902-1906) e teve como objetivos o melhoramento, embelezamento e higienização. Tratava-se ao mesmo tempo da adequação do espaço urbano à novas necessidades e de uma tentativa de solucionar as contradições urbanas da cidade.
A abertura de novas vias como a Avenida Central (atual Av. Rio Branco) e a Avenida Beira-Mar, juntamente com o alargamento de algumas ruas já existentes foi o principal instrumento de melhoria física. O embelezamento ficou por conta da colocação de estátuas nas praças e jardins, arborização das ruas, a construção de novas edificações como o Teatro Municipal, e a uniformização das fachadas ao longo das novas avenidas. A canalização dos rios, o saneamento da Lagoa Rodrigo de Freitas e a demolição dos cortiços foram as iniciativas realizadas com o objetivo de higienizar a cidade. No fundo todas essas reformas tinham como objetivo melhorar a imagem do Rio, que na época ainda era capital federal, e foram inspiradas na imagem de Paris, na época uma das cidades mais importantes do mundo. Ou seja, foi uma tentativa de europeização do Rio (aquela nossa velha mania provinciana de achar que tudo que vem de fora é melhor...)
Outra reforma de vulto foi a intervenção do governo federal para a modernização do porto carioca, através do aumento de sua área com a construção de aterros e a modernização dos armazéns e maquinário.
As duas reformas foram intervenções importantes no espaço urbano do Rio de Janeiro, e representam como os novos momentos de organização social demandam novas funções espaciais. Mas também mostram como a resolução inadequada de contradições espaciais gera outras contradições. De certa forma, a longo prazo, a reforma Pereira Passos acelerou o processo de estratificação social, pois a demolição dos cortiços na área central levou à criação das favelas, e aumentou a segregação entre centro e periferia.

Reformas Urbanas: Barcelona (Plano Cerdá)

Barcelona – Plano Cerdá
Desde meados do século XIX Barcelona apresentava um grande adensamento na área entre as muralhas, mas não era permitido construir no entorno da muralha.
Em 1858 é realizado um concurso para ampliação da cidade, vencido por Idelfonse Cerdá, que estabelecia a expansão da cidade não apenas nas áreas previstas, mas até os limites naturais da mesma. A cidade antiga (hoje o bairro gótico) torna-se apenas uma parte da nova estrutura urbana.
A ensanche de Cerdá é uma malha ortogonal, com quadras quadradas de mesma dimensão. As ruas têm 20m de largura e o gabarito, correspondente à largura da via, é uniforme em toda a extensão do plano. Uma das características mais importantes do plano Cerdá são as esquinas chanfradas. As esquinas são, culturalmente, ponto de referência e encontro de pessoas. O plano de Cerdá valoriza a esquina, aumentando o espaço da mesma, assim a interação entre as pessoas não impede o fluxo de pedestres.
A quadra-tipo era composta de dois blocos paralelos, mas havia a possibilidade de desenvolver novas propostas de quadras. As edificações ocupavam apenas metade da quadra, e o espaço livre seria uma área pública destinada ao lazer. A necessidade de adensamento obrigou Cerdá a estudar outras propostas, ocupando uma área maior da quadra. Na configuração final as edificações localizavam-se no entorno da quadra, e o centro permanecia como área livre, isolada, porém, do espaço urbano.

Reformas Urbanas: Viena Ringstrasse

Viena : a Ringstrasse

A cidade de Viena, no século 19, era formada por uma cidade interna, a área mais antiga e de origem medieval ainda cercada por uma muralha com uma faixa no entorno, não construída. Além desse cinturão a cidade havia se estendido em direção aos subúrbios, que ficaram isolados do núcleo urbano pelas fortificações e a área militar ao redor.
Essa grande extensão de terra no centro de Viena foi uma conseqüência do atraso histórico, uma vez que a cidade manteve suas fortificações medievais mesmo depois que as outras cidades européias já haviam abolido as suas muralhas.
Na segunda metade do século XIX os liberais chegam ao poder, e exigem o direito da autogestão municipal. Ao mesmo tempo a cidade passa por uma fase de desenvolvimento econômico que leva ao aumento da população pelas migrações. Viena torna-se centro da vida econômica e cultural da Áustria, o que gera a necessidade de se efetuar reformas na estrutura urbana da cidade.
As primeiras intervenções têm foco sanitarista e higienista: a canalização do rio Danúbio para evitar inundações, osistema eficiente de fornecimento de água, o sistema sanitário público e a construção do primeiro hospital público.
O cinturão ao redor do núcleo de Viena foi o centro da reconstrução urbana, realizada pela burguesia vienense. Como a reforma foi baseada nos interesses da classe mais rica não houve preocupação em melhorar as condições de vida da população nas áreas periféricas da cidade.
O exército vienense se opôs à reforma por questões de segurança: a faixa não edificada no entorno da muralha isolava a cidade antiga, onde residia a aristocracia, da periferia. Mantendo esse isolamento a corte podia se proteger de qualquer avanço revolucionário popular. A necessidade econômica de construção, porém, pesou mais do que o medo de uma revolta.
Em 1857 foi organizada uma comissão para expansão da cidade, que procurava regulamentar o planejamento urbano da Ringstrass. Nos primeiros anos de reforma a distribuição do espaço e as construções monumentais revelavam ideais neo-absolutistas. A primeira construção na Ringstrass foi uma igreja (1858 a 1879), simbolizando o poder da Igreja junto ao Estado. O papel do exército evidenciava-se na construção de quartéis e um arsenal, estrategicamente localizados para conter eventuais revoltas. A via principal que circunda o núcleo central foi construída em escala monumental para dificultar a construção de barricadas, a exemplo dos boulevares franceses.
Cerca de uma década depois do decreto para reforma da Ringstrass o regime neo-absolutista passou a ser uma monarquia constitucional. Assim, o exército perde seu poder junto ao Estado e o programa da Ringstrass passa a contemplar uma série de edifícios públicos, construídos em estilos diferentes de acordo com suas funções. Assim a administração municipal tem estilo neo-gótico, o Teatro em estilo neo-barroco, a universidade em estilo neo-renascentista e o parlamento em neoclássico. Enquanto na cidade antiga as principais construções eram palácios e igrejas, a Ringstrass contempla edifícios que demonstram o poder do governo constitucional. A monumentalidade não mais é aristocrática, mas sim popular.
A maior parte das construções na Ringstrass porém, é a de edifícios residenciais. A demanda por habitação leva à especulação imobiliária.
O controle do governo sobre as novas edificações se restringia à altura, alinhamento e em alguns casos ao parcelamento do solo. O restante era determinado pelo mercado consumidor, ou seja, pelos interesses da classe mais rica.
As construções características na Ringstrass foram os edifícios de apartamentos, com 4 a 6 andares e com poucos apartamentos. Na periferia a quantidade de unidades era maior para abrigar a população operária. As construções eram divididas e ocupadas de acordo com o poder aquisitivo dos moradores. O térreo era geralmente destinado ao comércio, o primeiro pavimento possuía espaços mais nobres; do segundo pavimento em diante a qualidade dos espaços eram menor. Numa época anterior à invenção do elevador, os primeiros andares eram os mais valorizados. Essa estratificação era evidenciada também no tratamento da fachada.
Como área residencial para a elite burguesa a Ringstrass foi um sucesso: era o local preferido das classes mais altas, mesmo com a existência de bairros elegantes na periferia. Os edifícios de apartamentos foram grandes investimentos, assim como os palácios de aluguel, que combinavam o prestígio de morar num palacete ao lucro. A tendência liberal levou a uma aproximação entre burguesia e aristocracia.
Pode-se notar que, no planejamento urbano dessa nova área, a Ringstrass, as classes mais baixas foram sistematicamente excluídas da nova estrutura urbana, e continuaram a morar na periferia, em moradias com condições precárias de salubridade.

Reformas Urbanas: Paris

REFORMA DE PARIS

No século XIX Paris era a segunda cidade mais industrializada da Europa. A exemplo do que aconteceu na pioneira Londres, Paris também sofreu um aumento populacional significativo depois do processo de industrialização, e apresentava condições de vida igualmente precárias especialmente entre a classe mais pobre.
Os primeiros a buscarem soluções para a cidade são os técnicos e higienistas. As Leis sanitárias são um início modesto da complexa legislação urbana contemporânea. Assim, a ação dos reformistas limita-se a setores como esgotos e suprimento de água potável. Contudo as intervenções não se estendem a toda a cidade por dificuldades políticas e financeiras. Na verdade pode-se dizer que ainda não havia uma verdadeira política urbana.
A ascensão dos governos da direita autoritária na Europa, com Napoleão III na França e Bismarck na Alemanha, leva a um controle mais rígido, por parte do estado, em vários setores da vida social e econômica, inclusive no campo do urbanismo.
A reforma de Paris, de 1851 a 1870 foi efetuada pelo Barão Haussman durante o governo de Napoleão III. Os objetivos da reforma de Haussman eram sanar as deficiências decorrentes do processo rápido de industrialização, com a construção de edifícios públicos que atendessem às novas demandas da população crescente, como estações ferroviárias, hospitais, edifícios administrativos, entre outros; reformas nos sistemas de água e esgoto e a criação de áreas verdes para salubridade e lazer. Todas essas iniciativas visavam transformar Paris na cidade mais importante do mundo. Além disso, é claro, havia um objetivo político implícito de manter a ordem pública e conquistar a simpatia popular através das reformas. No fundo o governo temia uma revolta popular em decorrência das acentuadas desigualdades sociais e econômicas existentes.
A situação do centro de Paris na época da reforma era problemática: sua característica medieval, com ruas estreitas, casas amontoadas umas sobre as outras, tornava as condições de vida muito precárias. A reforma buscava sanar essas deficiências através da criação de parques públicos, como Bois de Boulogne, a construção de edifícios públicos e de conjuntos habitacionais para a classe operária, a renovação das instalações (água e esgoto) para atender às novas demandas e as reformas no sistema viário. Nesse aspecto, aliás, a reforma de Haussman foi mais visionária, com a abertura de grandes avenidas (boulevares).
A atuação de Haussman, a princípio, foi muito criticada em função da destruição de áreas mais antigas da cidade. Os melhoramentos higiênicos e técnicos, contudo, acabaram por redimir Haussman.
A reforma de Paris foi a primeira grande reforma urbana e abriu caminho para uma série de outras reformas, tanto na França quanto no restante da Europa. Nenhuma dessas, porém, foi tão bem planejada ou teve tanto êxito quanto a reforma de Paris. Dentre os fatores de sucesso dessa reforma podemos citar o amplo poder do imperador, a existência de uma legislação urbana avançada (Leis de expropriação de 1840 e Leis Sanitárias de 1850), o alto nível técnico dos engenheiros da escola politécnica, o entendimento da dinâmica urbana do próprio Haussman e a importância cultural de Paris para o mundo. Se Paris já era um centro mundial de cultura antes da reforma, depois da intervenção de Haussman a cidade-luz se torna um exemplo de planejamento urbano eficiente.

Reformas Urbanas - A cidade Industrial (Inglaterra, século XIX)

CIDADE INDUSTRIAL

Na segunda metade do século XVIII a revolução industrial iniciada na Inglaterra impulsionou diversas mudanças na sociedade inglesa. Tais mudanças ocasionam uma nova conformação de cidade, a cidade industrial.
Entre os fatores que influenciaram essa nova constituição urbana estão o aumento da população pela diminuição das taxas de mortalidade: as melhorias na alimentação, higiene pessoal e nas instalações públicas, aliadas aos progressos no campo da medicina aumentaram a expectativa de vida da população e impulsionaram um rápido crescimento demográfico.
O êxodo rural, impulsionado pela industrialização, também teve seu papel no crescimento das cidades, ocasionando um inchamento dos centros urbanos em decorrência do aumento populacional e das migrações. Outro fator que favoreceu as migrações foi o desenvolvimento dos meios de transporte, que possibilitaram uma maior mobilidade de pessoas e mercadorias.
No âmbito político o liberalismo alcança o campo das reformas urbanas: os governos cedem terrenos públicos à classe mais favorecida, que investe na industrialização e no setor imobiliário. A especulação imobiliária tem seus reflexos na qualidade das moradias: o ideal de construir o maior número possível de unidades com o menor custo possível leva ao surgimento de moradias insalubres.
O crescimento das cidades leva à criação da periferia. O núcleo histórico e consolidado é preservado e passa a ser ocupado pela classe operária: as construções históricas são aproveitadas como moradia para as classes operárias: muitas vezes um mesmo edifício é ocupado por dezenas de famílias. Os mais ricos partem para os novos bairros elegantes da periferia. Também surgem bairros operários afastados do centro, dando origem à segregação por bairros. Enquanto as casas ricas são residências individuais em terrenos privilegiados e com grandes áreas verdes, as casas mais pobres localizam-se em terrenos próximos às indústrias e ferrovias, e caracterizam-se por serem edifícios com muitos andares e colados uns aos outros.
Em 1830 uma epidemia de cólera em Londres, na época uma das cidades mais populosas do mundo, leva o governo a intervir na questão urbana. Surgem estudos sobre a qualidade de vida das cidades, mas apenas em 1848 são aprovadas as primeiras leis sanitárias na Inglaterra. Embora as leis sanitárias tivessem como objetivo levar condições mínimas de salubridade às moradias populares, a adequação à legislação tornava o imóvel mais caro. Os mais pobres não podiam arcar com os custos das novas construções e continuaram a morar em locais insalubres.
As intervenções urbanas nesse momento dividem-se em duas linhas de pensamento: as REFORMAS LOCALIZADAS (realizadas pelo estado) e as UTOPIAS URBANAS (planos para cidades ideais realizados por intelectuais).