Es.pa.ço s. m. 1. Fís. Extensão tridimensional ilimitada ou infinitamente grande, que
contém todos os seres e coisas e é campo de todos os eventos.
I.ma.gi.ná.rio adj. 1. Que só existe na imaginação. 2. Que não é real. 3. Ilusório. S. m. Escultor de imagens.



sábado, 21 de junho de 2008

Rothko... de novo

Antes de se tornar um dos ícones do expressionismo abstrato, um dos movimentos mais importantes da arte moderna, Mark Rothko passou por uma infância conturbada. Nascido na Rússia, sua família emigrou para os Estados Unidos para fugir à perseguição contra os judeus. Rothko era um garoto muito inteligente e estudioso. Conseguiu uma bolsa de estudos para uma das mais respeitáveis universidades dos EUA, mas acabou por desistir do curso de direito. Ademais, ele era uma alma criativa, um artista por vocação.
Seus primeiros ensaios em pintura foram fortemente influenciados pelo expressionismo alemão. Na série de pinturas The Subway Rothko dá seus primeiros passos em direção aquele que se tornaria seu principal objetivo, sua obsessão: transportar para a pintura o sentimento profundo em relação à tragédia humana. Nessa época, porém, Rothko não passava de mais um pintor para a crítica.
Vinte anos de angústia e incerteza separam essa fase do auge de sua criação, já dentro do expressionismo abstrato, do qual Rothko se torna um dos principais representantes. Convidado a pintar uma série de quadros para decorar o restaurante Four Seasons, no famoso arranha-céu de vidro de Mies van der Rohe, o Seagram Building, Rothko realiza suas obras mais marcantes. Claro, o processo de criação dessas obras foi lento e doloroso para o pintor. Desde que iniciara suas experiências dentro do expressionismo abstrato, Rothko sempre buscou expressar em suas telas um lirismo que as aproximasse da humanidade. Para tanto, Rothko inspirou-se, entre outros mestres, em Michelangelo, gênio da Renascença, um dos pintores que mais se aproximara do sentimentalismo trágico que ele buscava alcançar. A questão é que não era possível pintar como Michelangelo: 500 anos de história da arte separavam os dois artistas. Nesse meio-tempo muita coisa havia acontecido, desde o Barroco até os ready-made de Duchamp, passando por Van Gogh e por Picasso. Quando Rothko consegue resolver esse dilema, o resultado é impressionante: suas obras, mais do que as de seus companheiros, servem como um balde de água fria naqueles que acusavam a arte americana de superficialidade. Superficialidade? Com Rothko? Impossível. Embora ele próprio negasse as aspirações místicas de sua pintura, é inegável que a interpretação de Rothko do expressionismo abstrato tem algo de religioso, de transcendental, de metafísico, como se ele tentasse alcançar uma grandeza só atingida pelos grandes mestres de cada religião, uma espécie de Nirvana pessoal, através da arte.
Desde suas experimentações expressionistas até a sua última fase, marcada pela melancolia exasperada e pela extrema angústia, Rothko sempre tentou alcançar o homem em essência, como se tentasse falar ao nosso eu interior, uma dimensão tão profunda do ser que nem mesmo nós conseguimos alcançá-la. O sentimentalismo de Rothko é antes de tudo uma tentativa de libertar o homem da trivialidade da vida diária. Sua obra tenta conscientizar-nos de nossa tragédia pessoal, de nossa miséria coletiva, nos aproximando da eternidade. Não é uma arte que busca uma fuga, mas sim uma afirmação de nossa essência eterna frente à fugacidade da existência cotidiana.

3 comentários:

Fernando L Lara disse...

Ayesha,
muito lindo seu texto sobre o Rothko, vou voltar sempre pra ler seu blog.
ps: poe uma imagenzinha de uma pintura do Rothko porque aposto que a maioria dos leitores nao conhece quase nada.
abracos,
Fernando Lara

Henrique Gonçalves disse...

Ayesha, texto maravilhoso! Seu blog está cada vez melhor, parabéns!

Ayesha Luciano disse...

Muito obrigada! Vou procurar melhorar sempre este blog para torná-lo um espaço de discussão sobre nossa profissão.
Obrigada pela visita, Fernando e Henrique!