Es.pa.ço s. m. 1. Fís. Extensão tridimensional ilimitada ou infinitamente grande, que
contém todos os seres e coisas e é campo de todos os eventos.
I.ma.gi.ná.rio adj. 1. Que só existe na imaginação. 2. Que não é real. 3. Ilusório. S. m. Escultor de imagens.



domingo, 1 de junho de 2008

Arquitetura do Espetáculo

A Arquitetura não se resume à atividade projetual, mas se estende à leitura e à escrita, certo? E tem coisa melhor do que escrever sobre arquitetura? Esse é o último dos meus textos, sobre arquitetura do espetáculo. Ainda em fase de construção, portanto se alguém tiver alguma informação que possa acrescentar algo, fique à vontade para comentar!

ARQUITETURA DO ESPETÁCULO OU ESPETÁCULO DA ARQUITETURA? OS DESAFIOS DA CONTEMPORANEIDADE

Cada vez mais somos bombardeados por todos os tipos de imagens, pulsantes e delirantes, na televisão, nos computadores, nos outdoors das cidades: a informação circula com uma rapidez nunca antes vista, e pressiona nossas retinas o tempo todo. Em todas as áreas da vida humana somos induzidos por imagens diversas: a moda imprime constantemente e imagem da elegância; a beleza nos oferece a imagem da perfeição; a mídia, de modo geral, está sempre vendendo imagens de prestígio, de poder, de progresso.
Não era de se admirar que o culto à imagem alcançasse também o campo da arquitetura. De uma hora para outra temos sido assomados por imagens diversas de inovações técnicas, possibilidades construtivas, ícones do espírito ousado da arquitetura contemporânea. Do Guggenheim de Bilbao para cá a mídia, especializada ou não, se apropriou da arquitetura como um objeto de exibicionismo. Em uma sociedade onde o marketing tem importância capital, onde uma idéia só vale se puder ser vendida por um bom preço, a arquitetura torna-se ainda mais imagética. Mais do que nunca os objetos arquitetônicos ganham a função de vender uma idéia, seja ela de progresso econômico, cultural ou tecnológico. Criou-se até mesmo um termo para designar esse tipo de empreendimento: Arquitetura do Espetáculo. Caracterizadas pela monumentalidade, pelas formas arrojadas e pelas inovações técnicas, tais obras tem proliferado entre os países desenvolvidos, e tem se tornado características na arquitetura, especialmente na Europa, Ásia e América do Norte. Que o digam o americano Fank Gerhy e o espanhol Santiago Calatrava, cujos projetos são excelentes exemplos dessa arquitetura colossal, bilionária e altamente rentável.
Que o leitor não me entenda mal. Não estou tentando estigmatizar Gerhy ou Calatrava: não me cabe dizer o que é certo e errado. Na verdade tal função seria uma tarefa inglória, uma vez que não existe certo e errado em arquitetura. O questionamento que estou propondo, sem a pretensão de chegar a uma conclusão definitiva, é a respeito da função principal da arquitetura na contemporaneidade. Será que a arquitetura espetacular tem diminuído o espetáculo da arquitetura? Afinal de contas, se me permitem citar o teórico italiano Bruno Zevi, o protagonista da arquitetura é o espaço: sem ele, tal atividade anula-se. É possível que o aumento do prestígio da imagem na arquitetura contemporânea tenha reduzido a importância da espacialidade no processo de criação projetual? A profusão da arquitetura do espetáculo tem definido a imagem do século XXI, ou é o novo século que tem exigido essa nova arquitetura? Ela é causadora ou vítima da profusão de caminhos que se nos apresentam na contemporaneidade?
Gerhy é de longe o maior expoente da arquitetura do espetáculo, e talvez o mais amado e odiado. Conhecido por sua notável inovação formal, cristalizada no museu Guggenheim de Bilbao, Gerhy se tornou um dos arquitetos mais celebrados da atualidade. Mas seus críticos são ferrenhos: embora plasticamente chocantes e tecnicamente instigantes, os projetos de Gerhy teriam, segundo estes, uma baixa qualidade espacial. A mesma crítica é feita ao arquiteto e engenheiro Santiago Calatrava, autor de projetos como a Cidade das Artes e da Ciência, em Valência, e o Edifício Turning Torso, inspirado na imagem de um torso humano em movimento. Um dos críticos de Gerhy e Calatrava é o arquiteto brasileiro Márcio Kogan que, em entrevista a uma revista especializada, reclama do “espaço pobre” nas obras desses arquitetos. No caso específico do Guggenheim de Bilbao, ainda há a questão do custo elevado da obra, a dificuldade de manutenção, o caráter experimental de algumas soluções técnicas, e o fato de que as inovações de Frank Gerhy são apenas estéticas, pois o museu, funcionalmente, é semelhante a outros museus do mundo.
A despeito das críticas, é preciso analisar também que tais obras sensacionalistas geralmente são financiadas pelo governo ou por grandes instituições privadas, e normalmente estão associadas a propostas de revitalização e requalificação urbana. Os críticos de Gerhy não podem ignorar, por exemplo, que o Guggenheim de Bilbao conseguiu requalificar uma área degradada da maior cidade basca: o turismo em torno do museu reacendeu a economia da região e projetou a cidade de Bilbao a nível internacional. É claro que um objeto de grande porte como um museu da franquia Guggenheim seria suficiente por si só para revitalizar a área, mesmo sem as ondulações delirantes de Gerhy. Mas é inegável que nesse caso a plástica ajudou. O investimento feito para a implantação, cerca de 650 milhões de euros, foi recuperado em menos de uma década e a pobre cidade do país basco hoje movimenta milhões de dólares, entre serviços de hotelaria, transportes e entretenimento. E tudo começou com um grande elemento escultórico que, por acaso, também é um museu.
Críticas e defesas à parte, é preciso analisar a recorrência desses fatores na arquitetura. O Guggenheim de Bilbao foi o primeiro de uma série de arquiteturas do espetáculo concebidas por Frank Gerhy. O que nos faz pensar se essa tendência é geral ou um mero modismo. E não é só entre os países desenvolvidos que se observa esse fenômeno. Afinal, não faz muito tempo houve várias reuniões e acordos a respeito da possibilidade de implantar-se um Guggenheim no Rio de Janeiro. O objeto proposto, da autoria do laureado Jean Nouvel, tinha todas as características da arquitetura do espetáculo: arrojada, tecnicamente inovadora e extremamente cara. Será que chegaremos ao estado supremo em que a arquitetura passará a reduzir-se a uma competição não apenas entre governos ou empresas, mas entre os próprios arquitetos para ver quem constrói o prédio mais sensacional, ao menos esteticamente?
Admirável ou questionável, a arquitetura do espetáculo está aí. Amada e odiada, tem suscitado debates em todo o mundo. É impossível chegar a uma conclusão sobre o assunto. Em todo caso, a crescente valorização da imagem na arquitetura é um fato que não pode ser ignorado. Se a arquitetura do espetáculo vai permanecer como tendência, que ao menos ela não diminua o prestígio do espetáculo da arquitetura: afinal de contas, essa imagem seria no mínimo assustadora.


Ah, e que fique bem claro: não tenho absolutamente nada contra Gerhy ou Calatrava (na verdade, eu adoro Calatrava). Mas o tema estava aí e, bem, sempre é preciso discutir esse tipo de assunto, certo? Afinal, como disse Nélson Rodrigues, "toda unamidade é burra".

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