Es.pa.ço s. m. 1. Fís. Extensão tridimensional ilimitada ou infinitamente grande, que
contém todos os seres e coisas e é campo de todos os eventos.
I.ma.gi.ná.rio adj. 1. Que só existe na imaginação. 2. Que não é real. 3. Ilusório. S. m. Escultor de imagens.



quarta-feira, 26 de novembro de 2008

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Série "Não basta ser bom arquiteto, tem que ter um bom fotógrafo"

Estamos começando hoje uma série aqui no blog, carinhosamente apelidada "Não basta ser bom arquiteto, tem que ter um bom fotógrafo", mostrando que às vezes uma boa fotografia vale mais que mil palavras... e plantas, cortes, fachadas...

Inaugurando a série, Herzog & de Meuron, com o projeto da Vinicola Dominus... A proposta era realizar uma arquitetura que se fundisse à paisagem. A proposta deu tão certo que o edifício quase sumiu! Um ponto pra quem achar a construção na foto de cima...

Mais fácil agora?

domingo, 2 de novembro de 2008

Arte conceitual... Ausência

O trabalho de arte conceitual da Priscilla foi muito legal!!! No fim superou as nossas expectativas!!! Aí vai o vídeo feito para o trabalho, acompanhado dos textos que foram declamados pela equipe, isto é, eu, Dani, Vânia e Karla. O título da obra é "Ausências".
Obs.: Uma breve explicação sobre o trabalho: o tema surgiu durante a aula mesmo. Quando a Priscilla explicou o trabalho eu virei para a Fran com uma folha em branco e disse:
- O nome da minha obra será "A vaca pastando" (baseada em um episódio do Chaves em que ele mostra a tal folha em branco e diz que desenhou a vaca pastando. Quando o professor Girafales pergunta onde estavam a vaca e o pasto o Chaves sabiamente repsonde "A vaca pastou e foi embora")
A Fran deu pála... Depois da aula, todo mundo me pergunatando o que eu ia fazer, eu pensei melhor na idéia da vaca pastando e daí surgiu a idéia de representar a ausência. Montamos um grupo e começamos a discutir o tema, e daí surgiram reflexões como "a ausência é um conceito humano: ela só existe porque nós nos acostumamos a certas coisas e daí, quando elas nos sao tiradas, nós sentimos aquilo como ausência" ou "Em alguns casos a ausência se torna presença: no caso das torres gêmeas, por exemplo, pra muitas pessoas elas começaram a existir, ao menos simbolicamente, a partir do momento em que elas foram derrubadas"...
E daí decidimos representar tudo isso em forma de imagens e texto... Cada um interprete a ausência que lhe convier!!!!

video

"Desde então me chamo ausência,

Porque me apartei de ti.

a lembrança de um ausente,

Tem mais força que a presença!

Me tornei canto de ausência"

Ausência, tempo e Querência. Fragmentos



"Por muito tempo achei que a ausência é falta."

Carlos Drummond de Andrade



"Eu fico à vontade com a sua ausência"

Tudo o que vai, Capital Inicial


"Eu te sinto ausente e tua ausência é mensurável
de modo tal que a possa absorver plena e perene
caso a efemeridade dela não se justificar mais
e deixar de ser ausência
e tornar-se a definitiva presença de saudades...
Pois que te sinto assim ausente de mim
e enceto contigo um diálogo de corredor de hospício
e sigo conversando com tua ausência.
Ela me responde em silêncio,
anuindo às vezes
Com uma ausência ainda maior.

(...)
Deste modo, agora eu converso com tua ausência
porque não há mais tempo para coisa alguma.
Só tempo para a ausência
em que te fazes tão presente em mim!"

Monólogo da Ausência, Reinaldo Luciano. Fragmentos


"Não quero que tua risada ou teus passos hesitem.

Não quero que minha herança de alegria morra.

Não me chames. Estou ausente.

Vive em minha ausência como em uma casa.

A ausência é uma casa tão rápida

que dentro passarás pelas paredes

e pendurarás quadros no ar.

A ausência é uma casa tão transparente

que eu, morto, te verei, vivendo,

e se sofreres, meu amor, eu morrerei novamente."

Pablo Neruda. fragmento


"Sou o corpo insepulto e vazio de alma.
Sou a ausência da chama.
Sou a morte calma, na cama...
Sou a raiz arrancada
da semente que irrompia...
Sou o ócio da mente
e a ironia do nada...
Sou a dor meticulosa
e o espinho da rosa...
Sou a sombra que passa
burlando o olhar arguto
de mil sentinelas que me espreitam.

Já rastejei... Mas me ergo resoluto
e escalo a torre infinita...
Sou um nada que grita lá do alto:
A vida é um assalto!
Mãos ao alto! Passe a vida!
E depois caio do nada absoluto
no vazio absoluto do asfalto!"


Vazio Absoluto
, Reinaldo Luciano.

domingo, 26 de outubro de 2008

Camillo Sitte e a contemporaneidade...

Quinta-feira, aula de Evolução do Pensamento Urbanístico I, da Profa Patrícia... O trabalho era uma análise do livro A construção das cidades segundo seus princípios artísticos, de Camilo Sitte. Papo vai, papo vem, tivemos uma discussão interessante sobre a função social das praças (e espaços livres públicos em geral) na contemporaneidade... A questão principal era: será que hoje em dia as praças são espaços vivenciados como há décadas atrás? Ou será que nossa vida corrida e a violência urbana nos tem afastado desses espaços? E se as praças estão mesmo "degenerando" por falta de uso, qual seria a solução mais adequada? É possível reverter esse quadro?
Claro que esse assunto é bem mais complicado do que parece. De um lado temos a degeneração das relações físicas entre as pessoas, graças ao avanço da informatização. Por outro, a violência gerada pelo caos urbano, que faz com que as pessoas evitem ao máximo os espaços inseguros, e aí incluem-se algumas praças e parques. Abandonados, esses locais se tornam foco de criminalidade, o que aumenta ainda mais a insegurança nesses espaços. Afinal, quem nunca passou por uma pracinha à noite e viu um grupinho meio suspeito fazendo sabe-se lá o que? Nas cidades pequenas, onde as distâncias físicas entre as pessoas são menores e onde há uma cultura que valoriza as relações pessoais as praças ainda são eventos sociais, ainda são ponto de encontro e interação entre pessoas. Mas nas grandes cidades o quadro tende mais para o abandono desses espaços.
Repito que é um assunto muito complexo. Jaime Lerner, autor do livro Acupuntura urbana destaca que a valorização de certos pontos no tecido urbano em muitos casos é suficiente para regenerar grandes áreas. Sem dúvida as praças e parques podem atuar como acupuntura urbana. Mas para isso é preciso fazer com que esses espaços se tornem atrativos para as pessoas, de modo que elas sintam-se parte daquele espaço e zelem por ele. Como fazer isso? Sinceramente não sei. Cabe aqui uma análise dos hábitos da população das grandes cidades para identificar quais as suas necessidades e, aí sim, procurar atendê-las com esses espaços... Não vamos deixar as praças morrerem (no aspecto social)... Ainda há tempo de fazer alguma coisa.
Obs.: O assunto é mesmo muito complexo, mas tambérm muito interessante. Acho que vai render um tema para meu trabalho final....

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Cinco livros...

Sem muitas idéias sobre o que postar eu resolvi fazer uma listinha dos meus livros favoritos... Então, toda semana vai aí uma lista de 5 livros que eu AMO, não só de Arq e Urb, mas também sobre outros temas pertinentes à nossa condição humana...
Essa semana os selecionados foram:
1. Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino
O mote do livro parece simples: o mercador veneziano Marco Polo, embaixador do Grande Kublai Khan, imperador dos tártaros, relata as numerosas cidades visitadas em suas missões diplomáticas. Parece, repito, porque o livro se desdobra em uma trama complexa à medida que a viagem prossegue. Nas palavras de Marco Polo as cidades descritas ganham contornos fantásticos, líricos, literários, atemporais e tais: a cada novo relato Ítalo Calvino, unindo poesia e uma boa dose de filosofia, discorre sobre a cidade, esse organismo complexo, controverso, simbólico e incrivelmente fascinate.
2. O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Bronte
Poucos romances conseguem ser ao mesmo tempo tão cativantes e tão perturbadores quanto este livro, escrito por uma jovem e enfermiça professora inglesa. O texto trágico e romântico de Bronte conta a história do atormentado amor de Catherine Earnshaw, uma caprichosa jovem de uma boa família inglesa, e Heathcliff, o mais vilanesco de todos os heróis dos romances vitorianos. O Morro dos Ventos Uivantes é um livro atemporal, romântico, trágico, denso: tentar desvendar essas personagens tão sombrias é um mergulho vertiginoso dentro da crueza e da doçura da alma humana.
3. A menina que roubava livros, de Markus Zusak
Quem poderia esperar que uma história contada pela morte se tornaria uma bela lição de vida? No livro de Markus Zusak a Morte, ela mesma, conta a história de Leisel Meminger, a menina que roubava livros, uma órfã que é acolhida, na Alemanha nazista, pelo casal Hubberman. Ao longo da história, Leisel conhece personagens marcantes, com os quais ela aprende mais sobre a vida e a morte. À medida em que a guerra prossegue, Leisel encontra nos livros, e nas pessoas que ela conhece, uma forma de superar a guerra, o ódio, a tristeza e o medo.
4. Saber ver a Arquitetura, de Bruno Zevi
Para quem já passou ou está passando pelo curso de Arquitetura e Urbanismo, as apresentações são dispensáveis. Para quem não conhece, é um dos livros mais emblemáticos na Teoria da Arquitetura. Começando com uma análise da crítica da arquitetura e da necessidade de saber interpretá-la segundo conceitos adequados, Zevi parte do modernismo para analisar o tratamento do espaço na história da Arquitetura.
5. A cidade na História, de Lewis Mumford
Em A cidade na história Mumford trata do surgimento e evolução das cidades ao longo da história da sociedade. Das organizações mais primitivas, às cidades-estado gregas, da gloriosa Roma às Bastides e burgos medievais, da cidade renascentista à cidade industrial do século XIX, o livro de Mumford convida a uma viagem no urbanismo através da história da humanidade.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

As postagens abaixo foram baseadas nas aulas de Evolução do Pensamento Urbanístico I, para os coleguinhas que querem estudar para a prova de amanhã. Divirtam-se!!

Reformas Urbanas: Rio de Janeiro (Pereira Passos)

A cidade do Rio de Janeiro, fundada em 1565, permaneceu como um simples entreposto comercial até que a descoberta do ouro em minas levou o desenvolvimento econômico para a região sudeste. Nesse período o Rio foi elevado à condição de capital da colônia.
Até o século XIX o Rio de Janeiro ocupava apenas a área limitada entre o morro do castelo, de são Bento, de Santo Antônio e da Conceição.
A precariedade dos meios de transporte obrigava a população a residir mais próxima. Não havia estratificação espacial e o status do morador era evidenciado apenas pela aparência externa da edificação.
Em 1808, com a chegada da corte portuguesa o Rio de Janeiro é elevado á condição de Sede do Reino Unido de Portugal e Algarves. A cidade de 60000 habitantes (dos quais 40000 eram escravos) recebe cerca de 15000 portugueses. Como conseqüência da instalação da corte no Rio acontecem grandes transformações em sua estrutura social e física. A abertura dos portos às nações amigas (leia-se INGLATERRA) levou a um desenvolvimento comercial. Os serviços de abastecimento de água foram melhorados. Os bairros em que a corte se instalou passaram a ser mais valorizados e, conseqüentemente, surge a estratificação espacial e a segregação por bairros. O processo de expansão da cidade também se acelera, uma vez que a população mais abastada procura novas áreas afastadas do centro.
Em 7 de setembro de 1822 o Brasil se torna “independente” de Portugal. Nesse período o Rio contava com mais de 100000 habitantes. A expansão da economia cafeeira atrai grandes contingentes de trabalhadores. Em meados do século XIX são cedidas concessões para a atuação de empresas estrangeiras nos serviços de transporte público, água e iluminação, etc.
Entre 1870 e 1902 acontece um processo de expansão acelerada da malha urbana. Essa expansão leva à melhoria dos transportes. O primeiro trecho da Estrada de Ferro D. Pedro II é concluído em 1858 e a primeira linha de bondes puxados à tração animal data de 1868. O trem liga o centro ao subúrbio, ocupado pela população de baixa renda; o bonde liga o centro à zona sul, ocupada pela classe mais alta.
Nesse período a situação do centro ainda era precária, pois as reformas foram localizadas nas áreas de expansão. As freguesias centrais encontravam-se extremamente adensadas devido à necessidade da população carente de residir próxima ao local de trabalho. Esse adensamento levou à proliferação de cortiços, que tornaram-se fonte constante de epidemias. Os discursos sanitaristas combatiam a existência dos cortiços e muitos destes foram expropriados e demolidos.
No final do século XIX, com o declínio da economia cafeeira houve um aumento no número de fábricas no Rio. Com o fim do sistema escravagista e a migração de trabalhadores estrangeiros o problema habitacional agravou-se. Os cortiços ainda existentes foram se adensando e as epidemias aumentaram.
Em 15 de Novembro de 1889 o Brasil tornou-se uma República. Com o novo regime surgiu o ideal de mudar a imagem colonial do Rio de Janeiro. A primeira reforma urbana de vulto nesse período aconteceu no governo de Pereira Passos (1902-1906) e teve como objetivos o melhoramento, embelezamento e higienização. Tratava-se ao mesmo tempo da adequação do espaço urbano à novas necessidades e de uma tentativa de solucionar as contradições urbanas da cidade.
A abertura de novas vias como a Avenida Central (atual Av. Rio Branco) e a Avenida Beira-Mar, juntamente com o alargamento de algumas ruas já existentes foi o principal instrumento de melhoria física. O embelezamento ficou por conta da colocação de estátuas nas praças e jardins, arborização das ruas, a construção de novas edificações como o Teatro Municipal, e a uniformização das fachadas ao longo das novas avenidas. A canalização dos rios, o saneamento da Lagoa Rodrigo de Freitas e a demolição dos cortiços foram as iniciativas realizadas com o objetivo de higienizar a cidade. No fundo todas essas reformas tinham como objetivo melhorar a imagem do Rio, que na época ainda era capital federal, e foram inspiradas na imagem de Paris, na época uma das cidades mais importantes do mundo. Ou seja, foi uma tentativa de europeização do Rio (aquela nossa velha mania provinciana de achar que tudo que vem de fora é melhor...)
Outra reforma de vulto foi a intervenção do governo federal para a modernização do porto carioca, através do aumento de sua área com a construção de aterros e a modernização dos armazéns e maquinário.
As duas reformas foram intervenções importantes no espaço urbano do Rio de Janeiro, e representam como os novos momentos de organização social demandam novas funções espaciais. Mas também mostram como a resolução inadequada de contradições espaciais gera outras contradições. De certa forma, a longo prazo, a reforma Pereira Passos acelerou o processo de estratificação social, pois a demolição dos cortiços na área central levou à criação das favelas, e aumentou a segregação entre centro e periferia.

Reformas Urbanas: Barcelona (Plano Cerdá)

Barcelona – Plano Cerdá
Desde meados do século XIX Barcelona apresentava um grande adensamento na área entre as muralhas, mas não era permitido construir no entorno da muralha.
Em 1858 é realizado um concurso para ampliação da cidade, vencido por Idelfonse Cerdá, que estabelecia a expansão da cidade não apenas nas áreas previstas, mas até os limites naturais da mesma. A cidade antiga (hoje o bairro gótico) torna-se apenas uma parte da nova estrutura urbana.
A ensanche de Cerdá é uma malha ortogonal, com quadras quadradas de mesma dimensão. As ruas têm 20m de largura e o gabarito, correspondente à largura da via, é uniforme em toda a extensão do plano. Uma das características mais importantes do plano Cerdá são as esquinas chanfradas. As esquinas são, culturalmente, ponto de referência e encontro de pessoas. O plano de Cerdá valoriza a esquina, aumentando o espaço da mesma, assim a interação entre as pessoas não impede o fluxo de pedestres.
A quadra-tipo era composta de dois blocos paralelos, mas havia a possibilidade de desenvolver novas propostas de quadras. As edificações ocupavam apenas metade da quadra, e o espaço livre seria uma área pública destinada ao lazer. A necessidade de adensamento obrigou Cerdá a estudar outras propostas, ocupando uma área maior da quadra. Na configuração final as edificações localizavam-se no entorno da quadra, e o centro permanecia como área livre, isolada, porém, do espaço urbano.

Reformas Urbanas: Viena Ringstrasse

Viena : a Ringstrasse

A cidade de Viena, no século 19, era formada por uma cidade interna, a área mais antiga e de origem medieval ainda cercada por uma muralha com uma faixa no entorno, não construída. Além desse cinturão a cidade havia se estendido em direção aos subúrbios, que ficaram isolados do núcleo urbano pelas fortificações e a área militar ao redor.
Essa grande extensão de terra no centro de Viena foi uma conseqüência do atraso histórico, uma vez que a cidade manteve suas fortificações medievais mesmo depois que as outras cidades européias já haviam abolido as suas muralhas.
Na segunda metade do século XIX os liberais chegam ao poder, e exigem o direito da autogestão municipal. Ao mesmo tempo a cidade passa por uma fase de desenvolvimento econômico que leva ao aumento da população pelas migrações. Viena torna-se centro da vida econômica e cultural da Áustria, o que gera a necessidade de se efetuar reformas na estrutura urbana da cidade.
As primeiras intervenções têm foco sanitarista e higienista: a canalização do rio Danúbio para evitar inundações, osistema eficiente de fornecimento de água, o sistema sanitário público e a construção do primeiro hospital público.
O cinturão ao redor do núcleo de Viena foi o centro da reconstrução urbana, realizada pela burguesia vienense. Como a reforma foi baseada nos interesses da classe mais rica não houve preocupação em melhorar as condições de vida da população nas áreas periféricas da cidade.
O exército vienense se opôs à reforma por questões de segurança: a faixa não edificada no entorno da muralha isolava a cidade antiga, onde residia a aristocracia, da periferia. Mantendo esse isolamento a corte podia se proteger de qualquer avanço revolucionário popular. A necessidade econômica de construção, porém, pesou mais do que o medo de uma revolta.
Em 1857 foi organizada uma comissão para expansão da cidade, que procurava regulamentar o planejamento urbano da Ringstrass. Nos primeiros anos de reforma a distribuição do espaço e as construções monumentais revelavam ideais neo-absolutistas. A primeira construção na Ringstrass foi uma igreja (1858 a 1879), simbolizando o poder da Igreja junto ao Estado. O papel do exército evidenciava-se na construção de quartéis e um arsenal, estrategicamente localizados para conter eventuais revoltas. A via principal que circunda o núcleo central foi construída em escala monumental para dificultar a construção de barricadas, a exemplo dos boulevares franceses.
Cerca de uma década depois do decreto para reforma da Ringstrass o regime neo-absolutista passou a ser uma monarquia constitucional. Assim, o exército perde seu poder junto ao Estado e o programa da Ringstrass passa a contemplar uma série de edifícios públicos, construídos em estilos diferentes de acordo com suas funções. Assim a administração municipal tem estilo neo-gótico, o Teatro em estilo neo-barroco, a universidade em estilo neo-renascentista e o parlamento em neoclássico. Enquanto na cidade antiga as principais construções eram palácios e igrejas, a Ringstrass contempla edifícios que demonstram o poder do governo constitucional. A monumentalidade não mais é aristocrática, mas sim popular.
A maior parte das construções na Ringstrass porém, é a de edifícios residenciais. A demanda por habitação leva à especulação imobiliária.
O controle do governo sobre as novas edificações se restringia à altura, alinhamento e em alguns casos ao parcelamento do solo. O restante era determinado pelo mercado consumidor, ou seja, pelos interesses da classe mais rica.
As construções características na Ringstrass foram os edifícios de apartamentos, com 4 a 6 andares e com poucos apartamentos. Na periferia a quantidade de unidades era maior para abrigar a população operária. As construções eram divididas e ocupadas de acordo com o poder aquisitivo dos moradores. O térreo era geralmente destinado ao comércio, o primeiro pavimento possuía espaços mais nobres; do segundo pavimento em diante a qualidade dos espaços eram menor. Numa época anterior à invenção do elevador, os primeiros andares eram os mais valorizados. Essa estratificação era evidenciada também no tratamento da fachada.
Como área residencial para a elite burguesa a Ringstrass foi um sucesso: era o local preferido das classes mais altas, mesmo com a existência de bairros elegantes na periferia. Os edifícios de apartamentos foram grandes investimentos, assim como os palácios de aluguel, que combinavam o prestígio de morar num palacete ao lucro. A tendência liberal levou a uma aproximação entre burguesia e aristocracia.
Pode-se notar que, no planejamento urbano dessa nova área, a Ringstrass, as classes mais baixas foram sistematicamente excluídas da nova estrutura urbana, e continuaram a morar na periferia, em moradias com condições precárias de salubridade.

Reformas Urbanas: Paris

REFORMA DE PARIS

No século XIX Paris era a segunda cidade mais industrializada da Europa. A exemplo do que aconteceu na pioneira Londres, Paris também sofreu um aumento populacional significativo depois do processo de industrialização, e apresentava condições de vida igualmente precárias especialmente entre a classe mais pobre.
Os primeiros a buscarem soluções para a cidade são os técnicos e higienistas. As Leis sanitárias são um início modesto da complexa legislação urbana contemporânea. Assim, a ação dos reformistas limita-se a setores como esgotos e suprimento de água potável. Contudo as intervenções não se estendem a toda a cidade por dificuldades políticas e financeiras. Na verdade pode-se dizer que ainda não havia uma verdadeira política urbana.
A ascensão dos governos da direita autoritária na Europa, com Napoleão III na França e Bismarck na Alemanha, leva a um controle mais rígido, por parte do estado, em vários setores da vida social e econômica, inclusive no campo do urbanismo.
A reforma de Paris, de 1851 a 1870 foi efetuada pelo Barão Haussman durante o governo de Napoleão III. Os objetivos da reforma de Haussman eram sanar as deficiências decorrentes do processo rápido de industrialização, com a construção de edifícios públicos que atendessem às novas demandas da população crescente, como estações ferroviárias, hospitais, edifícios administrativos, entre outros; reformas nos sistemas de água e esgoto e a criação de áreas verdes para salubridade e lazer. Todas essas iniciativas visavam transformar Paris na cidade mais importante do mundo. Além disso, é claro, havia um objetivo político implícito de manter a ordem pública e conquistar a simpatia popular através das reformas. No fundo o governo temia uma revolta popular em decorrência das acentuadas desigualdades sociais e econômicas existentes.
A situação do centro de Paris na época da reforma era problemática: sua característica medieval, com ruas estreitas, casas amontoadas umas sobre as outras, tornava as condições de vida muito precárias. A reforma buscava sanar essas deficiências através da criação de parques públicos, como Bois de Boulogne, a construção de edifícios públicos e de conjuntos habitacionais para a classe operária, a renovação das instalações (água e esgoto) para atender às novas demandas e as reformas no sistema viário. Nesse aspecto, aliás, a reforma de Haussman foi mais visionária, com a abertura de grandes avenidas (boulevares).
A atuação de Haussman, a princípio, foi muito criticada em função da destruição de áreas mais antigas da cidade. Os melhoramentos higiênicos e técnicos, contudo, acabaram por redimir Haussman.
A reforma de Paris foi a primeira grande reforma urbana e abriu caminho para uma série de outras reformas, tanto na França quanto no restante da Europa. Nenhuma dessas, porém, foi tão bem planejada ou teve tanto êxito quanto a reforma de Paris. Dentre os fatores de sucesso dessa reforma podemos citar o amplo poder do imperador, a existência de uma legislação urbana avançada (Leis de expropriação de 1840 e Leis Sanitárias de 1850), o alto nível técnico dos engenheiros da escola politécnica, o entendimento da dinâmica urbana do próprio Haussman e a importância cultural de Paris para o mundo. Se Paris já era um centro mundial de cultura antes da reforma, depois da intervenção de Haussman a cidade-luz se torna um exemplo de planejamento urbano eficiente.

Reformas Urbanas - A cidade Industrial (Inglaterra, século XIX)

CIDADE INDUSTRIAL

Na segunda metade do século XVIII a revolução industrial iniciada na Inglaterra impulsionou diversas mudanças na sociedade inglesa. Tais mudanças ocasionam uma nova conformação de cidade, a cidade industrial.
Entre os fatores que influenciaram essa nova constituição urbana estão o aumento da população pela diminuição das taxas de mortalidade: as melhorias na alimentação, higiene pessoal e nas instalações públicas, aliadas aos progressos no campo da medicina aumentaram a expectativa de vida da população e impulsionaram um rápido crescimento demográfico.
O êxodo rural, impulsionado pela industrialização, também teve seu papel no crescimento das cidades, ocasionando um inchamento dos centros urbanos em decorrência do aumento populacional e das migrações. Outro fator que favoreceu as migrações foi o desenvolvimento dos meios de transporte, que possibilitaram uma maior mobilidade de pessoas e mercadorias.
No âmbito político o liberalismo alcança o campo das reformas urbanas: os governos cedem terrenos públicos à classe mais favorecida, que investe na industrialização e no setor imobiliário. A especulação imobiliária tem seus reflexos na qualidade das moradias: o ideal de construir o maior número possível de unidades com o menor custo possível leva ao surgimento de moradias insalubres.
O crescimento das cidades leva à criação da periferia. O núcleo histórico e consolidado é preservado e passa a ser ocupado pela classe operária: as construções históricas são aproveitadas como moradia para as classes operárias: muitas vezes um mesmo edifício é ocupado por dezenas de famílias. Os mais ricos partem para os novos bairros elegantes da periferia. Também surgem bairros operários afastados do centro, dando origem à segregação por bairros. Enquanto as casas ricas são residências individuais em terrenos privilegiados e com grandes áreas verdes, as casas mais pobres localizam-se em terrenos próximos às indústrias e ferrovias, e caracterizam-se por serem edifícios com muitos andares e colados uns aos outros.
Em 1830 uma epidemia de cólera em Londres, na época uma das cidades mais populosas do mundo, leva o governo a intervir na questão urbana. Surgem estudos sobre a qualidade de vida das cidades, mas apenas em 1848 são aprovadas as primeiras leis sanitárias na Inglaterra. Embora as leis sanitárias tivessem como objetivo levar condições mínimas de salubridade às moradias populares, a adequação à legislação tornava o imóvel mais caro. Os mais pobres não podiam arcar com os custos das novas construções e continuaram a morar em locais insalubres.
As intervenções urbanas nesse momento dividem-se em duas linhas de pensamento: as REFORMAS LOCALIZADAS (realizadas pelo estado) e as UTOPIAS URBANAS (planos para cidades ideais realizados por intelectuais).

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

As duas postagens abaixo foram baseadas na apostila de História da Arquitetura 5, do prof Bruno Sarmento. As imagens das obras citadas eu fico devendo por enquanto.

Pós-Modernidade 02

Para Joseph Maria Montaner, a pós-modernidade apresentou três momentos distintos, que ele classifica como:

1. Classicismo Revivalista e Historicista
2. Ecletismo
3. Contextualismo Cultural



1. Classicismo Revivalista

Baseados na “segurança” da reprodução da linguagem clássica os revivalistas recorrem de maneira literal ao passado e ao classicismo sem experimentações ou reinterpretações. Os princípios de composição clássica, como axialidade, simetria, proporção, repetição, hierarquia e ordem tornam-se mais importantes do que a espacialidade. A busca por novos valores é feita no passado e na história e não na no local e na “cultura do lugar”.
. Consagram-se na exposição no MOMA – The architecture of the école de Beaux-Arts – 1977 – Arthur Drexler
- Quinlan Terry – 1937: Richmond Riverside Development – Surrey 1984/87
- Thomas Gordon Smith: Vitruviun House - 1990
- Allan Greenberg

Classicismo Historicista

Os classicistas historicistas também buscam valores compositivos no passado; também são influenciados por princípios clássicos de composição. Mas, ao contrário dos revivalistas este grupo se utiliza desses elementos em livres experimentações, reinterpretando os valores clássicos em novas composições.

Michael Graves - Portland Building – Portland – Oregon USA - 1980
Michael Graves - The Humana Building – Louisville – Kentucky USA – 1982/85
Michael Graves - Walt Disney Dolphin Hotel – 1990 – Buena Vista Florida
Charles Moore - Piazza d’Italia – New Orleans – 1976/79
Charles Moore - Haas School os Business – University of Berkeley
Johnson & Burgee - AT&T Building – New York – 1984 – Neo-Georgiano Chippendale
Johnson & Burgee - Comerica Tower – Detroit – 1991/93
Johnson - PPG Place – Pittsburgh - 1984
Robert Stern - Mexx International – Holanda – 1985/87
Ricardo Bofill
Conjunto Habitacional
Marne-la-Vallée
1978/82

2. Ecletismo

O ecletismo teve como característica principal uma arquitetura híbrida. Ao mesmo tempo em que buscam valores na história e no passado clássico os ecléticos se permitem livres reinterpretações dos elementos históricos. Mas, diferentemente dos classicistas historicistas, os ecléticos utilizam um método compositivo com ênfase na espacialidade de herança moderna e não apenas na composição clássica da Escola de Belas Artes: ou seja, o ecletismo é um híbrido entre a espacialidade moderna e o resgate histórico pós-moderno.
- James Stirling (1926-1992): Neue Staatsgalerie – Stuttgart – 1977/83
- Hans Hollein (1934) – Agência Austríaca de Viagens – 1976/78
- Hans Hollein – Haas Haus – Vienna – 1986/87
- Hans Hollein - VOLKSSCHULE KÖHLERGASSE - 1979

3. Contextualismo Cultural

Diferentemente dos anteriores, os contextualistas buscam na tradição do lugar e na cultura do lugar os valores que orientam sua produção: são os contextualista que começam a entender o “espírito do lugar” (Zaitgeist, Genius Loci) como ponto de partida para a criação projetual. Foram influenciados pelas teorias de Ernesto Nathan Rogers, Aldo Rossi, Norbeg-Schulz, e tem relação com o conceito de “Regionalismo Crítico” de Kenneth Frampton.

- Álvaro Siza Vieira (1933):
- Portugal
- Casa de Chá Boa Nova - Leça da Palmeira, Portugal – 1958/63
- Complexo de Piscinas de Leça da Palmeira, Portugal – 1961/66
- Igreja do Marco de Canaveses – Portugal – 1990/96

- Rafael Moneo (1937)
- Espanha
- Prefeitura de Múrcia – Espanha – 1991/98
- Museu de Arte Romana - Mérida – Espanha
- Ampliação do Museu do Prado – Madrid – Espanha - 2007

Mario Botta (1943)
- Suíça
- Riva San Vitale – Ticino – Suíça - 1971/73
- Casa Rotonda – Ticino – Suíça – 1980/82
- Cappella di Santa Maria degli Angeli, Monte Tamaro, Suíça – 1992/96
- Banco Nacional da Grécia – Atenas – 1998/2001

Pós-Modernidade 01

A pós-modernidade é o período genérico que começa na década de 60, caracterizado por uma intensa crítica ao movimento moderno, o modelo arquitetônico vigente na época.
No final da década de 60 o movimento moderno encontrava-se em declínio. De modo geral a crise no modernismo começou de dentro pra fora, mais especificamente no CIAM X, organizado pelo chamado Team X: nesse momento já era possível notar um enfraquecimento dos ideais modernistas, tanto no campo da arquitetura quanto no campo do urbanismo. Assim, os questionamentos sobre a validade das teorias modernas tornaram-se mais abertos. Na década de 60 iniciou-se um período de transição conhecido como pós-modernidade, caracterizado por uma crítica veemente à ideologia modernista e pela ausência de um discurso unificador.
As mudanças que aconteceram na sociedade nesse período tiveram grande influencia sobre a produção arquitetônica pós-moderna: o fim das barreiras disciplinares e o conseqüente intercâmbio de conhecimento entre profissionais das mais diversas áreas, o fortalecimento do modo de vida capitalista e do consumismo, a disseminação da informação e dos avanços tecnológicos, o desenvolvimento das chamadas ciências sociais, como a antropologia, a sociologia, etc. Tudo isso contribuiu para que se formasse uma visão crítica sobre a produção arquitetônica moderna e conseqüentemente ocasionou o fortalecimento de uma nova ideologia. Nesse período reconheceu-se que os ideais de transformação social e do “homem novo” presentes no modernismo eram utópicos, uma vez que os seres humanos são, por natureza, indivíduos complexos, ou seja, não podem ser analisados sob pontos de vista generalistas ou universais. A falência da cidade moderna e funcional abriu o caminho para novos questionamentos no campo do urbanismo. Dentro da arquitetura surgiram críticas à visão tecnocrática e funcionalista do modernismo e ao seu caráter determinista, e assim, surgiram novos valores como o papel histórico, cultural e local na produção arquitetônica e a importância da forma em detrimento da função.
Todos esses questionamentos foram encabeçados por vários estudos, dentro e fora do campo da arquitetura. Dentre esses podemos citar:

- A Imagem da Cidade (1960) – Kevin Linch
- Morte e Vida das Grandes Cidades (1961) – Jane Jacobs
- Notes on the Synthesis of Form (1964) – Christopher Alexander
- Intenções em Arquitetura (1965) – Christian Norberg-Shulz
- Paisagem Urbana (1965) – Gordon Cullen
- Complexidade e Contradição em Arquitetura (1966) – Robert Venturi
- Arquitetura da Cidade (1966) – Aldo Rossi
- O Território da Arquitetura (1966) – Vittorio Gregotti

No entanto foi Charles Jencks quem popularizou o termo Pós-Modernismo com a publicação em 1977 do livro A Linguagem da Arquitetura Pós-Moderna, no qual, inclusive, Jencks fixa a data do nascimento do novo “estilo”: 15 de Julho de 1972 às 15:32 hs, o momento exato da demolição do conjunto Pruitt- Igoe, (St. Louis, Missouri), considerada um marco da falência de todos os ideais que até então haviam dominado a produção arquitetônica e urbanística.
Outro estudo fundamental para o fortalecimento de uma ideologia pós-moderna foi o livro Morte e Vida das Grandes Cidades (1961), de Jane Jacobs, socióloga, escritora e ativista nascida nos Estados Unidos e naturalizada Canadense. A partir da análise da situação das grandes cidades americanas na década de 50, Jane passou a criticar duramente o modelo de cidade moderna e funcional, pelo seu determinismo utópico e ignorância da imensa complexidade cultural, política, social e física das cidades. A partir dessa análise Jacobs propõe um resgate do espaço urbano através de defesa da rua tradicional, da diversidade funcional (áreas de uso misto), do conceito de Distrito (Bairro), as quadras curtas em contraposição às superquadras modernas, a concentração de pessoas com propósitos distintos, densidade, necessidade de “Confiança” e “Segurança” no espaço público e crítica aos espaços “inseguros” como os grandes parques considerando-os incapazes de promover o convívio social.
Já o arquiteto italiano Aldo Rossi, autor do livro Arquitetura da cidade (1966), defende o poder da memória e da “tradição” na conformação da cidade, entendendo-a como bem histórico e cultural. Essa análise de Rossi, aliás, parte da premissa de que a cidade é conformada pelas arquiteturas ao mesmo tempo em que conforma as mesmas, estabelecendo uma relação complexa entre esses dois “sistemas” e reafirmando sua interdependência. Rossi, interpreta a cidade por critérios múltiplos influenciados pela Psicologia, sociologia, filosofia, geografia e história. Sua crítica ao “funcionalismo ingênuo” é justificada por sua teoria da permanência da forma, ou seja, na crença de que os valores formais estão carregados de símbolos que trazemos em nosso inconsciente e que estes não podem ser ignorados.
Robert Venturi, autor de Complexidade e Contradição em Arquitetura (1966) concentra-se na critica às arquiteturas sem sentido ou valor projetadas pelos seguidores do Movimento Moderno. Também propõe um retorno ao passado e à história, por entender o valor desses elementos na produção arquitetônica e reage de forma crítica à arquitetura moderna, que procura mudar o ambiente e conseqüentemente os usuários ao invés de tentar interpretá-los, de forma determinista, ignorando assim toda a nossa complexidade e contradição como seres humanos. Em contraposição a uma arquitetura moderna que se auto-referenciava, Venturi buscava uma arquitetura que transmitisse valores. Daí seu entendimento da fachada como elemento autônomo. Para Venturi “A forma expressa sua função”.

sábado, 27 de setembro de 2008

Elogios à pós-modernidade

Quem disse que a pós-modernidade não teve coisas boas? Mario Botta, Alvaro Siza e Rafael Moneo que o digam! Quem não conhece esses arquitetos, vale a pena dar uma boa olhada:


Restaurante Boa Nova, em Portugal, de Siza Vieira (anos 60)


Casa Riva San Vitale, Mario Botta (anos 70)


Câmara Municipal de Murcia, de Rafael Moneo (anos 90)

domingo, 20 de julho de 2008

Ausência...

Os leitores deste blog já repararam que eu tenho estado ausente e não posto mais nada já faz muito tempo. Acontece que nestas férias tenho me dedicado a alguns projetos (não arquitetônicos) que tem ocupado boa parte do meu tempo... Mas, assim que eu puder, volto a postar!
E boas férias a todos!

domingo, 29 de junho de 2008

Leiam!

Há anos tento convencer os amigos mais próximos da importância da leitura para o desenvolvimento do intelecto (lição que eu aprendi com meu pai, leitor, escritor, dramaturgo e poeta). Mas nem todos confiam em mim... Aos amigos estudantes que ainda não se convenceram, ouçam o que disse Oscar (o Niemeyer):
"Sem a leitura o jovem sai dos cursos superiores desprovido do conhecimento da vida, deste mundo difícil que vai encontrar pela frente"
Niemeyer fala que a leitura foi importante em sua vida, dando "um sentido mais amplo, mais modesto, diante deste universo que nos encanta e humilha".
Por isso, pessoal, leiam! Sigam o exemplo de Niemeyer! Não dói, e é um ótimo passatempo.
Ah, só por curiosidade, vejam só o que ele dizia quando era zoado pelos amigos por ler Simenon (para quem não sabe, Simenon foi um grande escritor francês de romances policiais):
"Acho que li todos de Simenon. Os amigos se espantavam, argumentando que neles nada havia de conteúdo importante. Lembro-me da ocasião em que os fulminei, dizendo que em suas 'Cartas ao Castor' Sartre confessava que em um dia havia lido três romances de Simenon".
P.S: Vou começar a ler Simenon também! Se Sartre falou (e Oscar ratificou), tá falado!

sábado, 28 de junho de 2008

intervenção urbana em JF

O trabalho final da disciplina História da Arquitetura e Urbanismo IV foi a elaboração de uma proposta de intervenção urbana na região central de Juiz de Fora. O detalhe é que a proposta deveria ser feita com base no ideário do urbanismo modernista. Ou seja, era necessário olhar Juiz de Fora e propor uma intervenção com os olhos e a cabeça de Corbu...
Daí eu, Dani e Messias resolvemos aloprar geral. Se era pra ser modernista, a gente resolveu extrapolar... Não sei se foi por isso, mas a gente fechou o trabalho!


Segue-se o texto do trabalho e os croquis explicativos:


"Devido à necessidade de reconstrução promovida pela guerra, o urbanismo ganha força dentro do modernismo. O principal teórico do urbanismo moderno foi Le Corbusier, que foi também o principal defensor da arquitetura moderna em termos de teoria. Seus projetos urbanos, como Ville Contemporaine, o Plan Voisin e a Ville Radieuse tornaram-se canônicos no modernismo.
Assim como na arquitetura também no urbanismo a racionalização tem papel fundamental. Isso se reflete no rígido zoneamento das cidades ditas modernas, em que esta se divide em setores principais, de acordo com as principais atividades do homem: trabalhar, habitar, recrear e, ligando todas estas, circular.
Outras premissas do urbanismo são a idéia de eliminar o excesso populacional das cidades aumentando sua densidade, através da construção de edifícios altos, erguidos do chão para aumentar os espaços livres públicos, tendo em vista também a importância da circulação para o urbanismo moderno.
Nossa proposta para a reforma urbana em Juiz de Fora leva em consideração as premissas modernistas anteriormente citadas. Através da análise do mapa de Juiz de Fora pudemos identificar algumas das principais artérias de escoamento do tráfego na cidade: a avenida Rio Branco, a Rua Halfeld, a Avenida Independência, a Rua Olegário Maciel e a Getúlio Vargas.

A partir dessa análise nossa proposta foi a criação de edifícios viadutos paralelos a estas ruas. Assim, teríamos dois níveis de cada uma delas: a rua original e a rua elevada sobre o edifício viaduto, como mostra o desenho a seguir.
Os edifícios seriam recuados para permitir uma perspectiva mais ampla, criando um grande espaço público de circulação. Além disso, o térreo sobre pilotis seria liberado como espaço de convivência e circulação coberta. O espaço entre os edifícios seria preenchido com áreas verdes públicas.




Além disso propusemos uma setorização, dividindo-se a área central em lazer, administrativo, comercial e residencial. A região em torno do parque Halfeld seria ocupada com edifícios administrativos. O calçadão seria mantido, mas com área maior e circundado de edifícios comerciais. A parte alta da Rio Branco, a Independência, a Olegário Maciel seriam ocupadas com edifícios residenciais. A região norte seria destinada ao lazer. A divisão da cidade em diferentes setores é mostrada no mapa a seguir.


(em roxo, área comercial, o vermelho é a área administrativa e o laranja área residencial)

E esse é o croqui do Messias mostrando o resultado final: edifício viaduto +praça pública...

(os croquis anteriores eram meus... já tinham visto croqui abstrato antes? hehehehe)
Enfim, esse foi o nosso trabalho, com uma proposta radical baseada no princípio Osama: joga tudo no chão e faz de novo... No fim das contas, apesar de todo o sufoco, a disciplina História IV foi bem proveitosa! Valeu professora Pati!

Rothko... mais uma vez


A pedido do Professor Fernando Lara (blog Parede de meia), aí está uma tela de Rothko... Não sei o nome, mas é uma de suas primeiras obras dentro do expressionismo abstrato, e uma das minhas preferidas.

sábado, 21 de junho de 2008

Rothko... de novo

Antes de se tornar um dos ícones do expressionismo abstrato, um dos movimentos mais importantes da arte moderna, Mark Rothko passou por uma infância conturbada. Nascido na Rússia, sua família emigrou para os Estados Unidos para fugir à perseguição contra os judeus. Rothko era um garoto muito inteligente e estudioso. Conseguiu uma bolsa de estudos para uma das mais respeitáveis universidades dos EUA, mas acabou por desistir do curso de direito. Ademais, ele era uma alma criativa, um artista por vocação.
Seus primeiros ensaios em pintura foram fortemente influenciados pelo expressionismo alemão. Na série de pinturas The Subway Rothko dá seus primeiros passos em direção aquele que se tornaria seu principal objetivo, sua obsessão: transportar para a pintura o sentimento profundo em relação à tragédia humana. Nessa época, porém, Rothko não passava de mais um pintor para a crítica.
Vinte anos de angústia e incerteza separam essa fase do auge de sua criação, já dentro do expressionismo abstrato, do qual Rothko se torna um dos principais representantes. Convidado a pintar uma série de quadros para decorar o restaurante Four Seasons, no famoso arranha-céu de vidro de Mies van der Rohe, o Seagram Building, Rothko realiza suas obras mais marcantes. Claro, o processo de criação dessas obras foi lento e doloroso para o pintor. Desde que iniciara suas experiências dentro do expressionismo abstrato, Rothko sempre buscou expressar em suas telas um lirismo que as aproximasse da humanidade. Para tanto, Rothko inspirou-se, entre outros mestres, em Michelangelo, gênio da Renascença, um dos pintores que mais se aproximara do sentimentalismo trágico que ele buscava alcançar. A questão é que não era possível pintar como Michelangelo: 500 anos de história da arte separavam os dois artistas. Nesse meio-tempo muita coisa havia acontecido, desde o Barroco até os ready-made de Duchamp, passando por Van Gogh e por Picasso. Quando Rothko consegue resolver esse dilema, o resultado é impressionante: suas obras, mais do que as de seus companheiros, servem como um balde de água fria naqueles que acusavam a arte americana de superficialidade. Superficialidade? Com Rothko? Impossível. Embora ele próprio negasse as aspirações místicas de sua pintura, é inegável que a interpretação de Rothko do expressionismo abstrato tem algo de religioso, de transcendental, de metafísico, como se ele tentasse alcançar uma grandeza só atingida pelos grandes mestres de cada religião, uma espécie de Nirvana pessoal, através da arte.
Desde suas experimentações expressionistas até a sua última fase, marcada pela melancolia exasperada e pela extrema angústia, Rothko sempre tentou alcançar o homem em essência, como se tentasse falar ao nosso eu interior, uma dimensão tão profunda do ser que nem mesmo nós conseguimos alcançá-la. O sentimentalismo de Rothko é antes de tudo uma tentativa de libertar o homem da trivialidade da vida diária. Sua obra tenta conscientizar-nos de nossa tragédia pessoal, de nossa miséria coletiva, nos aproximando da eternidade. Não é uma arte que busca uma fuga, mas sim uma afirmação de nossa essência eterna frente à fugacidade da existência cotidiana.

Guggenheim luso-brasileiro

Na capa da revista aU desse mês, o extraordinário Siza Vieira com o projeto da nova sede da Fundação Iberê Camargo, inaugurada no final do mês passado em Porto Alegre. Siza surpreende com o uso inteligente de volumes curvos e ortogonais, criando uma verdadeira escultura. Um elemento importante são as rampas, uma referência clara ao museu mais emblemático do modernismo... Sim, o Iberê Camargo é nosso “Guggenheim tupiniquim”!


Ah, nessa mesma matéria, destaque para o texto de Edson da Cunha Mahfuz!

Polêmica no projeto de Portzamparc

O projeto da Cidade da Música Roberto Marinho ainda nem saiu do papel e já está causando polêmica. No dia 3 de março foi instaurada uma CPI na câmara de vereadores do Rio de Janeiro para investigar irregularidades envolvendo o projeto. Algumas das denúncias dizem respeito ao elevado custo da obra (estimada em cerca de 170 milhões de dólares), e sobre a ausência de licitações no processo de contratação das empresas de Portzamparc que se encarregarão do projeto e da obra. Ainda não foram encontradas irregularidades, mas os membros da CPI, presidida pelo vereador Carlo Caiado, ainda querem explicações sobre as denúncias feitas. Chistian de Portzamparc tem acompanhado tanto o andamento do projeto quanto dos debates políticos envolvendo sua “legitimidade”. E aí? Será que as denúncias têm embasamento ou isso é uma tradição (ou Karma) do Brasil, em que todas as coisas acabam em CPI e todas as CPIs em pizza? Resta esperar o relatório final para saber se o projeto sai ou não sai. A propósito, segundo o vereador Roberto Monteiro, as empresas que Portzamparc criou no Brasil, contratadas sem licitação pela prefeitura carioca, ainda podem sofrer investigação criminal...

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Arquitetura em Revista

O pessoal da nossa sala conhece o projeto do Henrique, o Architecture Chanel, um canal com programação especial voltada para a arquitetura, com o objetivo de divulgar nossa atividade entre a população como um todo... Ok, sem as pretensões tão grandiosas do Henrique, estive pensando em como o curso de arquitetura do CES precisa de um veículo de divulgação. Certo, o pessoal da comunicação tentou fazer um jornalzinho voltado para todos os cursos do CES, mas a idéia não vingou. Será que uma publicação mais direcionada agradaria aos estudantes de arquitetura? Falando sério, seria legal ter um veículo de comunicação para divulgar a produção do CES, como participações em concursos, projetos de pesquisa, e até mesmo os PAs premiados de cada semestre... Talvez fosse uma boa: com isso o curso de arquitetura ganharia "visibilidade", e, de certa forma, essa idéia daria continuidade à iniciativa da Professora Bianca com o blog Lugar Invisível.
Ok, por enquanto talvez seja uma idéia muito louca, mas, se acontecer... Será que a galera vai aderir?

sábado, 14 de junho de 2008

Mensagens subliminares?

Passeando na Internet há alguns dias encontrei um site sobre algumas das novidades da aquitetura (http://www.noticiasarquitectura.info/default.asp) Em meio a uma centena de projetos de arquitetos dos mais diversos cantos do mundo, encontrei dois projetos que tem elementos formais e técnicos que eu pensei para o meu PA: o prédio de apartamentos AR58 de Derek Dellekamp e conjunto de apartamentos do escritório Bevk & Perovik. Ou seja, eu fui influenciada sem saber! De Dellekamp a referência é a composição assimétrica de blocos justapostos alternadamente, criando uma volumetria de "cheios e vazios". Já de Bevk e Perovik, o uso de uma membrana externa composta por painéis tipo "persianas", que fazem o fechamento dos elementos de vidro e permitem que o usuário defina privacidade, luz e sombra...

Memética? Pode ser...

detalhe do projeto de Bevk & Perovik

AR58, de Derek Dellekamp

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Reta final... mesmo!

Estou desistindo da vida, mas antes disso, juro que termino meu PA... Agora só faltam 10 dias!
(Aleluia!.... ou naum?)
Ah, pelo menos uma matéria a menos pra me preocupar: média 70 em Sistemas Estruturais! ufa! Essa foi por pouco!

sábado, 7 de junho de 2008

A mais nova de Nouvel


Jean Nouvel, ganhador do Pritzker 2008, venceu no mês passado o concurso para a construção de um novo arranha-céu no bairro parisiense La Defense. A Torre Signal terá 301 metros de altura e será concluída em 2013.

Um dos arquitetos que concorreram com Nouvel foi ninguém mais ninguém menos que Sir Norman Foster! Além do britânico Nouvel também deixou pra trás o americano Daniel Libeskind e os compatriotas Jean-Michel Wilmotte (autor do Memorial Portas da Paz, em Hiroshima e do Memorial Muro da Paz, em Paris) e Jacques Ferrier. A torre retangular branca de 140 mil metros quadrados terá escritórios, apartamentos, hotéis, lojas, restaurantes e equipamentos públicos. O custo do projeto é estimado em 600 milhões de euros e, segundo alguns, a Torre Signal vai concorrer em popularidade com a famosíssima Torre Eiffel. Patrick Devedjian, dirigente do órgão público encarregado de dar uma nova atmosfera ao bairro La Defense disse que a maquete de Nouvel é "irretocável em termos de técnica e desenvolvimento sustentável".

Vejam só algumas imagens da Torre. Mais um ponto pra Nouvel?

Jean Nouvel e a maquete da torre.



Perspectiva que mostra a Torre Signal implantada na cidade de Paris. A torre é o primeiro de vários projetos de arranha-céus que serão construídos no bairro La Defense nos próximos anos.


fonte: http://diversao.uol.com.br/ultnot/afp/2008/05/27/ult32u19268.jhtm

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Contagem Regressiva! Projeto de Arquitetura e Urbanismo V

Faltam exatos 18 dias para a entrega de PA!
Será que isso é bom ou ruim?

Rothko

Hoje na aula de História da Arte assistimos a um vídeo sobre o pintor expressionista abstrato Mark Rothko. Até assistir esse vídeo Pollock era disparado o pintor que eu mais admirava nesse movimento, por causa de um artigo que li uma vez sobre suas obras. Depois de conhecer melhor a vida e a obra de Rothko seus quadros se tornaram muito mais interessantes pra mim (não que eu não achasse interessante antes, mas eu não compreendia direito). Agora penso que Rothko talvez tenha sido o mais humano dos pintores modernos, pela sua tentativa constante e quase obsessiva de transportar para suas telas o sentimento, expressão máxima da condição humana. Confiram alguns dos quadros. E se tiverem a oportunidade de assistir ao vídeo, assistam. Vale muito a pena. (Aliás, eu não sei bem qual o título do filme: me parece que é parte de uma série de programas da BBC, mas eu vou procurar descobrir e posto aqui logo que eu puder)


Não é dramático e intenso? É quase perturbador, mas eu adoro.


Esse é ótimo. Bonito, mas extremamente triste. Parece um lugar completamente isolado e silencioso (quem sabe no espaço sideral?).

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Mais sobre arquitetura do Espetáculo...

No meu texto sobre arquitetura do espetáculo faltou mencionar a arquitetura dos Emirados Árabes. Mais uma vez, observem as características principais: arquitetura monumental, cara e rentabilíssima. E os sheiks do petróleo estão mandando ver nas encomendas: cada vez mais surgem empreendimentos desse tipo nos Emirados. Excelente oportunidade de emprego, não?



Prédio nos Emirados Árabes, que lembra MUITO um ipod: depois de terem feito uma ilha e uma pista de ski artificial, podemos esperar qualquer coisa dos sheiks do petróleo.

Hotel em Dubai: Custou caro, mas pelo menos tem qualidade estética e técnica.

Comentem aí, galera!

Mostra de Museus Futuristas em Berlim

"Passeando" pela Internet encontrei uma matéria muito legal sobre uma Mostra de Arquitetura em Berlim, que destaca vários projetos de museus futuristas. Eis que lá estava o sempre desafiador Frank Gerhy e suas ondulações delirantes. Embora a exposição tenha acabado no mês passado, vale a pena dar uma olhada, os projetos são bem interessantes. Pena que na matéria não consta o nome dos arquitetos.

Museu na cidade austríaca de Graz, de Peter Cook e Colin Fournier.

Museu de Arte Contemporânea de Denver, projeto de Daniel Libeskind.



Esse é o projeto de Gerhy para uma galeria de arte em Washington.


Confiram a matéria na íntegra: http://georgezix.multiply.com/reviews/item/26

domingo, 1 de junho de 2008

Arquitetura do Espetáculo

A Arquitetura não se resume à atividade projetual, mas se estende à leitura e à escrita, certo? E tem coisa melhor do que escrever sobre arquitetura? Esse é o último dos meus textos, sobre arquitetura do espetáculo. Ainda em fase de construção, portanto se alguém tiver alguma informação que possa acrescentar algo, fique à vontade para comentar!

ARQUITETURA DO ESPETÁCULO OU ESPETÁCULO DA ARQUITETURA? OS DESAFIOS DA CONTEMPORANEIDADE

Cada vez mais somos bombardeados por todos os tipos de imagens, pulsantes e delirantes, na televisão, nos computadores, nos outdoors das cidades: a informação circula com uma rapidez nunca antes vista, e pressiona nossas retinas o tempo todo. Em todas as áreas da vida humana somos induzidos por imagens diversas: a moda imprime constantemente e imagem da elegância; a beleza nos oferece a imagem da perfeição; a mídia, de modo geral, está sempre vendendo imagens de prestígio, de poder, de progresso.
Não era de se admirar que o culto à imagem alcançasse também o campo da arquitetura. De uma hora para outra temos sido assomados por imagens diversas de inovações técnicas, possibilidades construtivas, ícones do espírito ousado da arquitetura contemporânea. Do Guggenheim de Bilbao para cá a mídia, especializada ou não, se apropriou da arquitetura como um objeto de exibicionismo. Em uma sociedade onde o marketing tem importância capital, onde uma idéia só vale se puder ser vendida por um bom preço, a arquitetura torna-se ainda mais imagética. Mais do que nunca os objetos arquitetônicos ganham a função de vender uma idéia, seja ela de progresso econômico, cultural ou tecnológico. Criou-se até mesmo um termo para designar esse tipo de empreendimento: Arquitetura do Espetáculo. Caracterizadas pela monumentalidade, pelas formas arrojadas e pelas inovações técnicas, tais obras tem proliferado entre os países desenvolvidos, e tem se tornado características na arquitetura, especialmente na Europa, Ásia e América do Norte. Que o digam o americano Fank Gerhy e o espanhol Santiago Calatrava, cujos projetos são excelentes exemplos dessa arquitetura colossal, bilionária e altamente rentável.
Que o leitor não me entenda mal. Não estou tentando estigmatizar Gerhy ou Calatrava: não me cabe dizer o que é certo e errado. Na verdade tal função seria uma tarefa inglória, uma vez que não existe certo e errado em arquitetura. O questionamento que estou propondo, sem a pretensão de chegar a uma conclusão definitiva, é a respeito da função principal da arquitetura na contemporaneidade. Será que a arquitetura espetacular tem diminuído o espetáculo da arquitetura? Afinal de contas, se me permitem citar o teórico italiano Bruno Zevi, o protagonista da arquitetura é o espaço: sem ele, tal atividade anula-se. É possível que o aumento do prestígio da imagem na arquitetura contemporânea tenha reduzido a importância da espacialidade no processo de criação projetual? A profusão da arquitetura do espetáculo tem definido a imagem do século XXI, ou é o novo século que tem exigido essa nova arquitetura? Ela é causadora ou vítima da profusão de caminhos que se nos apresentam na contemporaneidade?
Gerhy é de longe o maior expoente da arquitetura do espetáculo, e talvez o mais amado e odiado. Conhecido por sua notável inovação formal, cristalizada no museu Guggenheim de Bilbao, Gerhy se tornou um dos arquitetos mais celebrados da atualidade. Mas seus críticos são ferrenhos: embora plasticamente chocantes e tecnicamente instigantes, os projetos de Gerhy teriam, segundo estes, uma baixa qualidade espacial. A mesma crítica é feita ao arquiteto e engenheiro Santiago Calatrava, autor de projetos como a Cidade das Artes e da Ciência, em Valência, e o Edifício Turning Torso, inspirado na imagem de um torso humano em movimento. Um dos críticos de Gerhy e Calatrava é o arquiteto brasileiro Márcio Kogan que, em entrevista a uma revista especializada, reclama do “espaço pobre” nas obras desses arquitetos. No caso específico do Guggenheim de Bilbao, ainda há a questão do custo elevado da obra, a dificuldade de manutenção, o caráter experimental de algumas soluções técnicas, e o fato de que as inovações de Frank Gerhy são apenas estéticas, pois o museu, funcionalmente, é semelhante a outros museus do mundo.
A despeito das críticas, é preciso analisar também que tais obras sensacionalistas geralmente são financiadas pelo governo ou por grandes instituições privadas, e normalmente estão associadas a propostas de revitalização e requalificação urbana. Os críticos de Gerhy não podem ignorar, por exemplo, que o Guggenheim de Bilbao conseguiu requalificar uma área degradada da maior cidade basca: o turismo em torno do museu reacendeu a economia da região e projetou a cidade de Bilbao a nível internacional. É claro que um objeto de grande porte como um museu da franquia Guggenheim seria suficiente por si só para revitalizar a área, mesmo sem as ondulações delirantes de Gerhy. Mas é inegável que nesse caso a plástica ajudou. O investimento feito para a implantação, cerca de 650 milhões de euros, foi recuperado em menos de uma década e a pobre cidade do país basco hoje movimenta milhões de dólares, entre serviços de hotelaria, transportes e entretenimento. E tudo começou com um grande elemento escultórico que, por acaso, também é um museu.
Críticas e defesas à parte, é preciso analisar a recorrência desses fatores na arquitetura. O Guggenheim de Bilbao foi o primeiro de uma série de arquiteturas do espetáculo concebidas por Frank Gerhy. O que nos faz pensar se essa tendência é geral ou um mero modismo. E não é só entre os países desenvolvidos que se observa esse fenômeno. Afinal, não faz muito tempo houve várias reuniões e acordos a respeito da possibilidade de implantar-se um Guggenheim no Rio de Janeiro. O objeto proposto, da autoria do laureado Jean Nouvel, tinha todas as características da arquitetura do espetáculo: arrojada, tecnicamente inovadora e extremamente cara. Será que chegaremos ao estado supremo em que a arquitetura passará a reduzir-se a uma competição não apenas entre governos ou empresas, mas entre os próprios arquitetos para ver quem constrói o prédio mais sensacional, ao menos esteticamente?
Admirável ou questionável, a arquitetura do espetáculo está aí. Amada e odiada, tem suscitado debates em todo o mundo. É impossível chegar a uma conclusão sobre o assunto. Em todo caso, a crescente valorização da imagem na arquitetura é um fato que não pode ser ignorado. Se a arquitetura do espetáculo vai permanecer como tendência, que ao menos ela não diminua o prestígio do espetáculo da arquitetura: afinal de contas, essa imagem seria no mínimo assustadora.


Ah, e que fique bem claro: não tenho absolutamente nada contra Gerhy ou Calatrava (na verdade, eu adoro Calatrava). Mas o tema estava aí e, bem, sempre é preciso discutir esse tipo de assunto, certo? Afinal, como disse Nélson Rodrigues, "toda unamidade é burra".

Do espaço e da arquitetura

"O espaço é o protagonista da arquitetura"

Logo que entrei para o primeiro período de Arquitetura e Urbanismo, fui obrigada a ler "Saber ver a Arquitetura", de Bruno Zevi. Digo obrigada porque naquela época eu não entendia bulhufas sobre arquitetura, quiçá sobre urbanismo. Na verdade, tudo o que eu sabia sobre arquitetura era que desenhava-se bastante, e que Oscar Niemeyer era arquiteto. De resto, absolutamente nada.
Por isso talvez tenha sido tão importante ler Bruno Zevi e, um pouco depois, Louis Khan (Forma y Diseño). Foi o meu primeiro contato real com a arquitetura, em termos de teoria. E foi fundamental para que eu passasse a compreender melhor o espaço, que, como Bruno Zevi disse, é o protagonista da Arquitetura.
Claro, seria mentira dizer que esse primeiro contato foi sufuciente para que eu passasse a compreender verdadeiramente a essência da arquitetura: isso é algo que você vai descobrindo a medida em que estuda e vivencia a arquitetura. Mas como primeira lição foi fundamental. O mesmo pode ser dito de Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, que marcou meu primeiro contato com a cidade.

Por isso cá estou eu, criando esse blog para falar sobre arquitetura. Sobre espaço, sobre cidades, sobre sociedade e até mesmo sobre futilidades. Afinal, como disse um grande autor, cujo nome não me lembro agora, "o que salva a gente mesmo é a futilidade".